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Cultura - Novas Mídias

 

Sábado, 07 de Março de 2020

A guerrilha pagou um anúncio no jornal

Por Marcelo Faria de Barros

A censura política era feroz no início do ano de 1970. Jornais, rádios e TV só divulgavam o que os órgãos de segurança permitiam. A maioria era conivente com a repressão. Normalmente divulgavam tiroteios ou atropelamentos forjados pela polícia/Forças Armadas para justificar a morte de algum guerrilheiro (a) na tortura. Em São Paulo, todos os edifícios residenciais mantinham um fichário, na portaria, com os dados dos moradores, inclusive crianças. As fichas eram fornecidas pelo Deops (Departamento de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo). Porteiros eram orientados a denunciar qualquer comportamento suspeito do morador. Muitos ignoraram. Outros abusaram do direito de ser dedo-duro.


Os grupos guerrilheiros estavam cercados e isolados pela repressão política, irmã gêmea da censura. Não tinham idéia do que na realidade acontecia no País. Isso desarticulava qualquer estratégia de luta. Um silencio assustador.


Em 1970 um dos jornais mais tradicionais de São Paulo era o Diario Popular, escrito assim mesmo sem o acento na palavra diário. Fundado em 1884 pelo jornalista luso-português José Maria Lisboa, era considerado um jornal neutro politicamente. Noticiava tudo. O seu mérito era ser reconhecido como jornal de quem estava à procura de trabalho. Alguns de seus cadernos de classificados eram bem baratos. Os anúncios de ofertas de emprego custavam pouco mais do que uma passagem de ônibus municipal. Tinham os anúncios maiores, mais caros, que eram vendidos às empresas. Divulgava também comunicados, a maioria de abandono de emprego, balanços e balancetes financeiros, venda de imóveis e carros, documentos perdidos, orações, necrologia. Era o jornal mais lido entre a população pobre, os chamados proletários.


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Um grupo de guerrilheiros ligado a Ação Libertadora Nacional (ALN), criada pelo líder comunista histórico, o baiano Carlos Marighella, vivia este momento de completo isolamento provocado pela repressão política. Clandestinos em aparelhos (casas alugadas com documentos falsos e com o dinheiro levantado nos assaltos a bancos ou trem-pagadores), o grupo decidiu romper o cerco para tentar descobrir o que acontecia na cidade de São Paulo.


Três rapazes e uma moça foram encarregados de colocar um anúncio no jornal Diario Popular para tentar provocar uma reação das forças de seguranças do regime militar em São Paulo. Na época, o Diario Popular funcionava num prédio estreito e velho, de sete andares, na Rua do Carmo, ao lado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e a poucos metros da Praça da Sé, antes de ser construída a estacão do Metrô.

Apresentaram-se pela manhã ao balcão de anúncios, ao lado da entrada principal do prédio. Informaram que queriam colocar um anúncio grande na página principal do jornal. A funcionária explicou que este tipo de classificados era bem mais caro, mas garantiu que qualquer erro de revisão, diagramação ou de endereços ou telefones errados, o Diario Popular publicaria outro, gratuitamente. Bastava telefonar e pedir a correção. Em casos mais graves, o cliente era convidado a ir pessoalmente. E brincou: "A não ser que tenha algum problema e o Dopis não deixe publicar. Mas isso não vai acontecer com este anúncio."


Empolgada com a venda, a coletora não prestou atenção na mensagem cifrada do anúncio: "Vendem-se armas para abater gorilas e macacos de pequeno porte. Tratar: .." colocaram nome, telefone e endereço fictícios. A única exigência que os anunciantes fizeram é de que fosse publicado o logotipo da empresa que estava vendendo as armas: uma alça de mira e a palavra ALN em maiúsculo. O texto era uma referência aos militares e civis envolvidos na repressão política.


Pagaram o anúncio com dinheiro, pegaram o recibo e antes de sair, ouviram a funcionária do jornal dizer que ficassem sossegados, pois iria mandar uma recomendação para o setor responsável pelos anúncios e para própria oficina do jornal, que funcionava no sistema de impressão chamado de linotipo - máquina de composição de linhas tipográficas em chumbo. Deu o número do telefone para reclamação e agradeceu.


Os três rapazes e a moça voltaram para o "aparelho" em Santo Amaro, zona sul de São Paulo, num carro furtado pela organização e com as placas também furtadas - placas conhecidas nos meios guerrilheiros como "marta rocha", referencia a uma famosa miss brasileira. Passaram o dia ansiosos. Discutiram se o anúncio ia ser publicado ou não. Ficaram também preocupados com o que poderia acontecer com a funcionária. Se seria levada ao Deops para prestar esclarecimentos. Se seria torturada. Perto da meia-noite, mandaram um simpatizante não procurado pela polícia ficar no Bar do Jeca, na esquina da Avenida São João com a Ipiranga, que funcionava 24 horas, para esperar a chegada do jornal na banca.


Por volta de 2 horas da madrugada o carro de distribuição apareceu com os jornais. Ele aguardou um tempo e depois foi à banca comprar o jornal, entregue embrulhado num plástico escuro. Apanhou um táxi e seguiu para o aparelho em Santo Amaro.


Quando os guerrilheiros abriram o jornal, não viram o anúncio. Começaram a rir e dar tapinhas uns nos outros. O rapaz que comprara o jornal não entendeu a reação. Quis saber o que estava acontecendo. Disseram que sabiam que a polícia tinha sido informada e censurara o anúncio. Era a prova de que a repressão continuava monitorando os passos da guerrilha.


No dia seguinte, bem cedo, um dos rapazes ligou para o jornal para saber porque o anúncio não havia sido publicado. A atendente pediu que aguardasse. Enquanto esperava, o rapaz percebeu o bocal do telefone ser tapado com a mão e um rumor de vozes. Passados longos minutos de espera, a atendente retornou e avisou que o chefe dela iria falar com o anunciante. O chefe pegou o telefone. Pediu desculpas pelo transtorno. Explicou que eles tinham algumas dúvidas sobre o texto e o logotipo da empresa e sugeriu que o anunciante fosse pessoalmente ao jornal para sanar as dúvidas. O rapaz agradeceu. Reclamou ter pagado caro pela publicação e que iria ao jornal no começo da tarde. Não apareceu. Naquela tarde os guerrilheiros comemoraram muito o furo no isolamento a que polícia os reduzira.


Publicada originalmente no blog Histórias Mal Contadas

 

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A guerrilha pagou um anúncio no jornal
 

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