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Sábado, 16 de Março de 2019

Crítica & Literatura: As almas pervertidas*

As almas pervertidas*



Por Olga de Mello**

Acontecem com frequência e há mais tempo do que imaginamos, esses massacres de inocentes. Há registros bíblicos sobre a morte de crianças por ordens do Estado. A eles se somam a incompreensível fúria de assassinos que, em boa parte das vezes, se suicidam depois de entrar para a História como carrascos de desconhecidos. A literatura raramente trata do tema. Uma exceção é o contundente "Precisamos falar sobre o Kevin" (Intrínseca, R$ 54,90), que deu à britânica Lionel Shriver o Orange Prize ao contar o drama de Eva, a mãe de um adolescente condenado por estar à frente de uma chacina em sua escola.



Lançado em 2003, "Kevin" antecipou em mais de uma década "O acerto de contas de uma mãe - a vida após a tragédia de Columbine" (Verus, R$ 47,90), de Sue Klebold, cujo filho Dylan e o amigo Eric Harris assassinaram treze pessoas e feriram 24 na escola onde estudavam, no Colorado, Estados Unidos, em 1999. Na tentativa de entender o que motivou o crime, Sue fala abertamente sobre sua própria dor e a perda de fé em tudo o que construiu. O jornalista Andrew Salomon entrevistou os pais de Dylan para o livro "Longe da árvore" (Companhia das Letras, R$ 86,90), que trata de crianças e pessoas marginalizadas por diferentes razões, entre elas o parentesco com criminosos. Os Klebold eram apontados pelos vizinhos como felizes e unidos, contrariando, segundo Salomon, a direita americana, que atribuiu o massacre ao "colapso dos valores familiares ", enquanto a esquerda reclamava da violência do cinema e pedia leis mais rígidas de controle de armas.


Na ficção, Lionel Shriver preferiu criar uma mãe deprimida, incapaz de se dedicar a seu bebê com desvelo - o que poderia justificar o jovem cruel e sociopata que surge. Alguém parecido com o norueguês Anders Breivik, antes de seu diagnóstico psiquiátrico como esquizofrênico em surto, que matou 77 pessoas e deixou feridas 51, em julho de 2011. Anders teve uma infância complicada pelos surtos depressivos da mãe. Morava na mesma rua de Oslo onde vivia a jornalista Åsne Seierstad, especialista em cobertura de conflitos internacionais. Åsne conversou com parentes de vítimas e sobreviventes do atentado provocado por Breivik numa ilha onde jovens participavam de uma reunião política para "Um de nós" (Record, R$ 64,90). O título encerra uma questão crucial para a jornalista: como explicar que a sociedade norueguesa, tão admirada mundo afora, abrigue grupos declaradamente racistas e xenófobos, com os quais Breivik se identificava.




A consistente pesquisa de Åsne Seierstad é tão inquientante quanto a autobiografia do fuzileiro naval Chris Kyle, que, na abertura de "Sniper americano" (Intrínseca, R$ 39,90), descreve como executou uma mulher - que carregava uma granada - no Iraque. Foi a única vez em que matou "alguém que não fosse um combatente homem", conta Kyle. "Meus tiros salvaram vários americanos, cujas vidas claramente valiam mais do que a alma pervertida daquela mulher", afirma Kyle, que matou 150 pessoas a serviço do Estado americano e destila um patriotismo exacerbado, desconhecendo a autonomia de territórios estrangeiros.







Criado em pequenas cidades do Texas, onde aprendeu a "importância da família e de valores tradicionais como patriotismo, autoconfiança e zelo", Kyle ganhou do pai seu primeiro rifle aos 8 anos, desenvolvendo paixão por armas e caça.

Em 2013, já aposentado, ele e um amigo foram mortos a tiros por um veterano da Guerra do Iraque que sofria de transtorno pós-traumático. Ambos estavam armados, porém não tiveram tempo sequer de destravar as pistolas.




*O título não corrobora a declaração de Chris Kyle. Ao contrário, refere-se a assassinos - com ou sem a chancela do Estado - que nos tornam reféns da violência cotidiana.






** Olga de Mello é jornalista, cronista, crítica literária e escreve aos sábados em Conexão Jornalismo.

 

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