Sírios e libaneses no Brasil dão apoio a vítimas de terremoto

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Em 5 de fevereiro, a comunidade síria de São Paulo se reuniu na Catedral Ortodoxa Antioquina para a missa de Santo Elian, um de seus padroeiros. A festa culminou, mais tarde, em café e doces árabes, servidos no salão social dessa igreja.

O contraste com o dia seguinte foi imenso. Em 6 de fevereiro, aquela mesma comunidade só falava —descrente— sobre o terremoto que tinha acabado de devastar o norte da Síria e o sul da Turquia, deixando ao menos 56 mil mortos entre os países.

Desde então, entidades sírias têm se coordenado para arrecadar ajuda humanitária para a população afetada na sua terra de origem. Organizações libanesas se uniram a elas. Afinal, esses dois grupos chegaram juntos ao Brasil há mais de um século.

A imigração árabe para o Brasil é celebrada todo dia 25 de março, data escolhida por causa da rua 25 de Março, no centro de São Paulo, onde tantos deles foram morar. Neste ano, as comemorações coincidiram com a campanha de arrecadação Juntos pela Síria.

As doações, feitas em dinheiro, foram concentradas na Câmara de Comércio Árabe-Brasileira. O time de 19 entidades já comprou 3,2 toneladas de alimentos desidratados, 1,1 tonelada de medicamentos e 2 máquinas de purificação de água.

“Apesar de estarmos aqui há tanto tempo, guardamos vínculos com nossos países de origem e existe um sentimento de pertencimento”, diz Osmar Chohfi, presidente da Câmara. É filho do sírio Michel Chohfi e da brasileira de origem síria Olga Abud Chohfi. Foi secretário-geral do Itamaraty e liderou a embaixada em Quito.

“O terremoto na Síria ecoou na comunidade, assim como a explosão no porto de Beirute”, diz Chohfi, citando o acidente que em agosto de 2020 destruiu parte da capital libanesa, causando ao menos 218 mortes e um prejuízo de quase R$ 80 bilhões.

O fato de entidades sírias e libanesas terem participado, juntas, da campanha de arrecadação é simbólico. Dá conta de que, apesar das divisões internas, os sírios e libaneses podem se articular como um só grupo, agregado pela cultura e história.

É emblemático também que haja entre as entidades doadoras representantes de diversas crenças. Ajudaram a arrecadar fundos, por exemplo, a Arquidiocese Ortodoxa, a Fambras (Federação das Associações Muçulmanas do Brasil) e o Lar Druzo Brasileiro. “Existe uma fraternidade muito grande entre nós”, diz Chohfi.

As doações devem ser entregues para o governo brasileiro, que por sua vez vai providenciar o transporte aéreo para a embaixada em Beirute e, dali, o deslocamento terrestre para a Síria. O destinatário é o Crescente Vermelho da Síria, que vai fazer a distribuição. A lista de remédios foi fornecida pelo governo sírio.

Os árabes começaram a imigrar para o Brasil na virada do século 19 para o 20. Saíam do leste do mar Mediterrâneo, da região conhecida como Levante, que àquela época era parte do Império Otomano, razão pela qual ficaram

conhecidos como “turcos”.

A Síria e o Líbano só surgiram depois como Estados. Com o tempo, as identidades nacionais de “sírio”, “libanês” e “sírio-libanês” apareceram. Havia também, entre esses imigrantes de fala árabe, palestinos, jordanianos e egípcios.

Eles se espalharam por todo o território nacional. Ficaram conhecidos, em particular, pelas lojinhas na rua 25 de Março, em São Paulo, e na rua da Alfândega, no Rio de Janeiro. Mas não foi só no comércio que se destacaram. Desde meados do século 20, por exemplo, rumaram à medicina, talento que foi mais tarde consolidado no Hospital Sírio-Libanês, uma das referências na América Latina.

Outro sucesso óbvio foi o da política. Não só o ex-presidente Michel Temer tem origem levantina como diversos outros nomes que circulam por Brasília, incluindo os de Fernando Haddad, Guilherme Boulos e Simone Tebet. No passado, o maior símbolo da intersecção entre imigração árabe e política brasileira foi Paulo Maluf.

Como parte das celebrações da imigração árabe para o Brasil, a comunidade se reuniu na terça-feira (21) na avenida Paulista para inaugurar a exposição “140+ Anos da Presença Libanesa no Brasil”. A mostra, no espaço cultural do Conjunto Nacional (av. Paulista, 2073), conta a história da visita de d. Pedro 2º ao Oriente Médio no final do século 19. A exibição vai até 16 de abril, com entrada gratuita.

A Câmara tem parceria com a Universidade do Santo Espírito de Kaslik, no Líbano, para a digitalização de jornais, revistas e livros publicados pelos árabes no Brasil. É uma literatura rica, em língua árabe, desconhecida pelos brasileiros.

Autor(es): DIEGO BERCITO / FOLHAPRESS

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