Autores: Patrícia Vieira.

Eu e meu marido, Arpad, somos sitiantes experimentais. Embora ele trabalhe com agricultores há mais de 20 anos, nós nos mudamos definitivamente para uma propriedade rural na Área de Proteção Ambiental – Capivari-Monos, em Parelheiros, em março de 2020, impulsionados pela pandemia. Meu consultório de psicanálise mudou-se de Pinheiros para a internet e meu setting passou a ter como pano de fundo o canto de cigarras.
Já frequentávamos o sítio, compartilhado com um casal de sócios, desde 2013. Lá, tentamos plantar morangos e fracassamos; plantamos cúrcuma e obtivemos êxito, bem como ervas, amoras e mirtilos, que são a base da alimentação dos nossos filhos de sete e cinco anos. Também remanejamos bromélias na vizinhança de samabaiaçus velhíssimos, espalhamos mudas de jussara e plantamos vetiver no entorno do lago, porque somos metidos a paisagistas. Construímos uma casa de vidro no meio da mata com 90% dos materiais adquiridos em depósitos de demolição com nomes irresistíveis, como Açobras e Duvidros.
No entanto, de longe, a empreitada mais divertida nessas terras úmidas no extremo sul da cidade de São Paulo foi o nosso galinheiro. Primeiro, era apenas um cercado de tela de sombrite, com um pinheiro no meio. As galinhas e os galos ornamentais – que pareciam saídos do cabeleireiro – foram trazidos pelo primo agrônomo do meu marido. Durante o dia, eles passeavam livremente pelos canteiros de amora e verdura e, ao entardecer, empoleiravam-se nos galhos da árvore para dormir. Parecia tudo ótimo até o crepúsculo. No breu, havia uma ameaça constante: os morcegos. Volta e meia, aparecia uma galinácea caída, com a cloaca ensanguentada, para tornar sinistra a manhã. Morcegos atacam os fundilhos mesmo. São impiedosos.
A fim de proteger as aves dos ataques vampíricos, um galinheiro foi erguido. Ripas de pinheiro, telhas de segunda mão e janelas descartadas em caçambas compuseram a obra que ficou digna das coleções bucólicas do Pinterest. Dentro, o primo agrônomo deu as instruções: o poleiro seria uma escada que cortaria transversalmente a construção, com comedouro e bebedouro ao lado no chão. Galos e galinhas dormiriam empoleirados em níveis. Assim foi feito. Parecia tudo lindo. Até o crepúsculo.
Quando se recolhiam para dormir, os galos (havia mais galos do que o recomendado; os morcegos vitimaram mais as galinhas) disputavam o degrau mais alto da escada. Eram sangrentas brigas de galo. Um dia, um galo branco se ergueu da multidão e decretou, em galinês, que o topo da escada lhe pertencia e passou a oprimir violentamente os demais. De manhã, uma multidão circulava em frangalhos pelo canteiro e esse tal que cantara de galo foi ficando isolado. O reinado durou uns meses e foi se agravando. Os outros galos passaram a ter dificuldade para acessar o comedouro, pois o tal queria tudo para si.
“O que fazer?”, perguntávamo-nos. Consultamos livros. Colocamos mais galinhas. Não adiantou. Antes que outra providência fosse tomada, houve uma revolução. Os galos oprimidos se reuniram e deram uma sova no opressor, devolvendo-o ao lugar dele: um entre outros. Depois de deprimir, ele aceitou o rebaixamento. Todavia, as brigas pelo topo da escada continuaram; a diferença é que o topo do falo, digamos assim, passou a circular. Cada noite, um reinado.
Até que Arpad teve uma ideia simples: colocar a escada-poleiro na horizontal. Voilà! Os galináceos não pareceram notar a diferença, mas ela foi implacável. Não houve mais briga pelo topo, pois o topo já não existia. Verificamos diversas vezes, incrédulos, que ficamos com a transformação social decorrente da reforma arquitetônica. No pôr do sol, eles se recolhiam e lá íamos nós espiar. Abríamos a porta com cuidado. Pela fresta, víamos galinhas e galos em paz, na horizontal. Eles nos olhavam cheios de pena, como quem tira os pepinos dos olhos e pergunta: “pois não? Por que perturbam nosso sono tranquilo?” Um sono na horizontal com seus semelhantes. A democracia estava instaurada.
Fonte: Via apublica.org
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