como as tecnologias estão transformando as religiões

Autores: Andrea DiP, Sofia Amaral, Ricardo Terto, Stela Diogo, Thaís Santana.

como as tecnologias estao transformando as religioes

No Brasil, cerca de 140 milhões de mensagens são trocadas por dia apenas com o ChatGPT, segundo a OpenIA, responsável pela tecnologia de Inteligência Artificial (IA) que destaca que o país está entre os três que mais utilizam o recurso no mundo. Esse uso já se reflete nos campos do trabalho, da informação e do aprendizado. Mas o que acontece quando a IA passa a mediar também o campo simbólico, espiritual e religioso?

Nesta temporada, Diálogos para entender o que é real, o Pauta Pública convida o acadêmico e pastor Valdinei Ferreira para falar sobre o atual cenário de uso da IA relacionado à fé, desde usuários que acreditam estar de fato conversando com uma consciência de outra dimensão, até as situações mais corriqueiras, como a utilização da IA para criar sermões e pregações que são reproduzidas por pastores nas igrejas. Na entrevista ele fala como tem sido a adaptação para estes novos tempos e aponta os principais desafios e limites das tecnologias em relação às vivências humanas.

De acordo Ferreira, o grande desafio é ajudar as pessoas a entenderem que existe um viés e que é preciso formar algum tipo de filtro crítico para que elas não sejam manipuladas pelas ferramentas de IA.” É difícil de entender e conseguir prever exatamente como as próprias igrejas e lideranças vão se posicionar em relação a isso […] e a gente tem uma falta de clareza de como as respostas são geradas. Então é bem difícil prever se isso pode recrudescer ainda mais o fundamentalismo.”

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 208
A fé que move algoritmos

20 de março de 2026
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Pastor e acadêmico, Valdinei Ferreira, fala sobre o encontro entre fé e inteligência artificial

Você escreveu um artigo sobre como alguns pastores já utilizam a inteligência artificial para criar sermões, e como alguns fiéis também já consultam ferramentas como o ChatGPT, como uma espécie de oráculo. Gostaria de saber como a inteligência artificial pode transformar a experiência religiosa?

Eu tenho a impressão que [a IA] está transformando e transformará ainda mais a experiência religiosa. Há muitas frentes ou direções, mas ainda é difícil a gente conseguir mapear. Uma delas é o uso que os religiosos fazem da inteligência artificial para elaboração do conteúdo, seja do sermão, de outras orientações, uma fonte de consulta. Isso é parte da performance religiosa, não é a performance toda, porque buscar um sermão, pedir para elaborar um sermão na inteligência artificial é uma parte do sermão, outra parte é entregar esse sermão, performar. Outra é a dos fiéis.

A coisa é tão dinâmica e surgem novas aplicações, atualizações. Por exemplo, eu menciono no artigo uma ferramenta PastorsAI, que foi desenvolvida por gente ligada à igreja, à teologia nos Estados Unidos, e é, inclusive, uma ferramenta que eu tenho recomendado também para alguns pastores, não para substituir o sermão. Porque na experiência religiosa, também tem esse elemento da inspiração pessoal, um tipo de jornada muito específica em que a leitura do texto bíblico é mediada pela experiência do pastor e, ao mesmo tempo, pela leitura das necessidades dos ouvintes, da comunidade.

E tem a questão do tempo. Existem, de fato, muitos pastores que se dividem entre o trabalho religioso e uma outra atividade profissional. Então, isso pode ser um encurtamento na produção de conteúdo. Mas eu tenho, por exemplo, utilizado essa ferramenta, PastorsAI, que você toma o texto do sermão que você escreveu, sobe e ele gera uma série de produtos a partir do sermão. Por exemplo, um guia de estudos para a comunidade, posts para o Instagram, outras reflexões a partir do sermão e feitas com muita qualidade, com uma interação bíblica, com um diálogo com a própria teologia evangélica protestante. E, nesse sentido, é mais uma ferramenta que encurta e acelera processos. O que envolvia, por exemplo, ter uma equipe de comunicação. Essa equipe já fica mais reduzida.

Digamos que eu quero me comunicar com Deus, então vou fazer uma pergunta ali para o ChatGPT esperar que Deus se comunique comigo a partir dessa IA. Será que isso não pode endurecer ainda mais, por exemplo, o fundamentalismo religioso, aquela ideia das verdades absolutas, ou uma tendência desse cristianismo que vai ali mais para a direita?

É possível. Acho que o grande desafio é conseguir dialogar e ajudar as pessoas a entenderem que existe o viés, que você pode ter esse tipo de direcionamento e formar algum tipo de filtro crítico para que ela não tenha só uma confirmação ou só uma manipulação a partir da ferramenta. Mas é difícil de entender e conseguir prever exatamente para onde isso vai, o tipo de uso que vai ser feito, como que as próprias igrejas e lideranças vão se posicionar em relação a isso, porque as igrejas também são muito ciosas e os líderes em relação a um tipo de autonomia que os fiéis ganham, para que não diminua uma dependência da igreja, e a pessoa passe a ter uma dinâmica devocional, religiosa, que não passe pela instituição. 

Eu fico imaginando que é possível ter um prompt a partir das palavras de Jesus, ou que selecione somente os ditos de Jesus e formule as perguntas. Mas também não é só o texto literal, depende do contexto, do que é perguntado. E a gente tem uma falta de clareza de como funciona o texto. , como as respostas são geradas. Então é bem difícil prever o uso, se isso pode recrudescer ainda mais o fundamentalismo. 

Participei de um congresso de psicanálise no final do ano, e um dos temas era inteligência artificial, um congresso de psicologia analítica junguiana, e um dos palestrantes relatou uma experiência dele com a IA, pedindo que a IA se comportasse como determinado psicanalista. Aí resolvi fazer o meu experimento. Fiz um prompt para que a IA agisse como Jung e interpretasse os meus sonhos. E é muito interessante, porque o que ela está fazendo basicamente é acessando a literatura junguiana e construindo interpretações dos meus sonhos. Há coisas muito interessantes que são ditas, mas também é fácil perceber. Por exemplo, os dois últimos parágrafos têm sempre uma estrutura muito semelhante e uma estrutura de dizer alguma coisa muito agradável para mim, muito encorajador, estimulante.

Como você acha que o uso das deepfakes, esses vídeos realistas criados com inteligência artificial, vai afetar ou piorar a circulação de notícias falsas, principalmente nos grupos das igrejas no WhatsApp, por exemplo. Já existem inclusive grupos de checagem específicos, como o coletivo Bereia, que faz um trabalho super bacana de checagem de notícias no mundo cristão. Mas você acha que isso pode se tornar um problema, esse uso das deepfakes nessas eleições? Elas podem piorar essa coisa das informações falsas circulando nesses grupos? E outra pergunta é como você vê o voto dos evangélicos nessas eleições? 

A impressão que eu tenho é que haverá, no segmento evangélico, um pouco mais de cautela, um pouco mais de moderação em relação ao que foi nas eleições de 2018 e de 2022. A razão pela qual eu penso que será assim é que [essa questão política ] tem consequências graves para as igrejas em termos de desgaste. Muitas pessoas que foram condenadas no 8 de janeiro, pelos atos golpistas no 8 de janeiro, são pessoas ligadas a igrejas evangélicas. Então, isso produziu um desgaste.

E, por outro lado, acho que o governo Lula foi bem cauteloso nesse mandato em não alimentar, em não ter ações que pudessem fomentar a pauta dos costumes contra o governo. Não há fatos novos que possam, até onde eu tenho conhecimento, ser explorados como em 2018 ou 2022. Por exemplo, as igrejas não foram fechadas, continuam seguindo. Há alguns bolsonaristas que deixaram esse campo, evangélicos bolsonaristas, e estão migrando. Penso, por exemplo, no Otoni de Paula (MDB-RJ). Então, há esse movimento e eu tenho a impressão que isso será mais fraco do que nas outras eleições. O que não significa que não haja resistência à esquerda, eu acho que essa resistência ou cautela existe, mas eu não vejo a mesma onda tão forte como 2018 e 2022. Porém, podem surgir fatos novos e as coisas podem se modificar.

Quanto à questão das deepfakes, acho que tem um elemento muito difícil. Eu me lembro do livro do Umberto Eco, a Viagem na Irrealidade Cotidiana. Ele disse que seria difícil, que era difícil distinguir a cópia do original, no caso das obras de arte, e que às vezes poderia ficar igual ou até superior ao original. Com a tecnologia fica muito difícil, cada vez mais difícil fazer essa distinção do que é real e o que não é real, o que é feito, o que é construído artificialmente. Eu acho que essa fronteira vai ficar mais difícil. 

É difícil também porque as pessoas decidem o voto, a adesão política com base em fatores mais emocionais e irracionais e depois elas buscam os argumentos em um vídeo. Ele até pode ser interpretado como não real, mas se representa em alguma medida o que a pessoa acredita, ou retrata parte do que aconteceu na realidade, o resultado disso pode ser imprevisível, embalando essa irracionalidade que move as eleições de um jeito que a gente não viu ainda, que pode ter consequências eleitorais muito fortes.

Então, eu acho que esse trabalho de checagem vai ser muito mais necessário, mas não sei também até que ponto ele resolve, porque o fato de receber no grupo, receber de alguém que se confia [pode bastar]. O sociólogo Paul Freston que usa uma expressão, em que ele usa a imagem de uma lavanderia como se fosse a fake news, que ao passar por alguém conhecido, a informação falsa é lavada e recebe um lastro de verdade, chegando para a pessoa como uma coisa autêntica. Esse é um desafio que a gente vai ter que esperar para saber o tamanho do estrago. Torço que não seja tão grande o estrago, mas acho que terá danos e a gente não sabe ainda como manejar isso.

Fonte: Via apublica.org

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