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Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Em 13 pontos, a conjuntura e os verdadeiros donos do poder no Brasil

Publicado no respeitado jornal francês Le Monde Diplomatique, na sua versão em português, artigo de Maurício Abdalla, professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo, é absolutamente contundente e atual. Escrito há um mês, ele lança luz sobre a conjuntura política do país e, em 13 pontos, mostra quem verdadeiramente determina o nosso destino desde o golpe político ocorrido no país no ano passado.

Sugestão de José Carlos Pelosi

13 pontos para embasar a análise do momento que estamos passando



Por Maurício Abdalla*

1 - O foco do poder não está na política, mas na economia. Quem comanda a sociedade é o complexo financeiro-empresarial com dimensões globais e conformações específicas locais.

2 - Os donos do poder não são os políticos. Estes são apenas instrumentos dos verdadeiros donos do poder.

3 - O verdadeiro exercício do poder é invisível. O que vemos, na verdade, é a construção planejada de uma narrativa fantasiosa com aparência de realidade para criar a sensação de participação consciente e cidadã dos que se informam pelos meios de comunicação tradicionais.

4 - Os grandes meios de comunicação não se constituem mais em órgãos de "imprensa", ou seja, instituições autônomas, cujo objeto é a notícia, e que podem ser independentes ou, eventualmente, compradas ou cooptadas por interesses. Eles são, atualmente, grandes conglomerados econômicos que também compõem o complexo financeiro-empresarial que comanda o poder invisível. Portanto, participam do exercício invisível do poder utilizando seus recursos de formação de consciência e opinião.

5 - Os donos do poder não apoiam partidos ou políticos específicos. Sua tática é apoiar quem lhes convém e destruir quem lhes estorva. Isso muda de acordo com a conjuntura. O exercício real do poder não tem partido e sua única ideologia é a supremacia do mercado e do lucro.

6 - O complexo financeiro-empresarial global pode apostar ora em Lula, ora em um político do PSDB, ora em Temer, ora em um aventureiro qualquer da política. E pode destruir qualquer um desses de acordo com sua conveniência.

7 - Por isso, o exercício do poder no campo subjetivo, responsabilidade da mídia corporativa, em um momento demoniza Lula, em outro Dilma, e logo depois Cunha, Temer, Aécio, etc. Tudo faz parte de um grande jogo estratégico com cuidadosas análises das condições objetivas e subjetivas da conjuntura.

8 - O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos lucros.

9 - Assim, os donos do poder não querem um governo ou outro à toa:
eles querem, na conjuntura atual,
a) a reforma na previdência,
b) o fim das leis trabalhistas,
c) a manutenção do congelamento do orçamento primário,
d) os cortes de gastos sociais para o serviço da dívida, e) as privatizações
e
f) o alívio dos tributos para os mais ricos.

10 - Se a conjuntura indicar que Temer não é o melhor para isso, não hesitarão em rifá-lo.

A única coisa que não querem é que o povo brasileiro decida sobre o destino de seu país.

11 - Portanto, cada notícia é um lance no jogo.
Cada escândalo é um movimento tático.
Analisar a conjuntura não é ler notícia. É especular sobre a estratégia que justifica cada movimento tático do complexo financeiro-empresarial (do qual a mídia faz parte), para poder reagir também de maneira estratégica.

12 - A queda de Temer pode ser uma coisa boa. Mas é um movimento tático em uma estratégia mais ampla de quem comanda o poder.
O que realmente importa é o que virá depois.

13 Lembremo-nos: eles são mais espertos.

Por isso estão no poder.

Publicado originalmente no Le Monde Diplomatique




*Maurício Abdalla é professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo

 

Veja também:

>> A falta de médicos na rede pública vira samba - veja o vídeo

>> Aécio acusado de lavagem de dinheiro em novo processo

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