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Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017

"Crônica do golpe": livro de Felipe Pena mostra o quanto o golpe alterou o cotidiano

Do Blog da Editora Record

Felipe Pena: o golpe entrou na vida e nas relações pessoais
Felipe Pena: o golpe entrou na vida e nas relações pessoais

Jornalista, professor e escritor, Felipe Pena lança no próximo dia 31 de agosto o livro "Crônicas do golpe", uma análise de como o movimento que derrubou Dilma Rousseff do poder, há apenas um ano, alterou desde os rumos do país, hoje falido e mal visto mundo afora, ao nosso próprio cotidiano. Em reportagem de divulgação do livro, publicado pelo site da editora, Felipe revela ter vivido, em síntese, o que ocorreu com boa parte dos brasileiros - a ruptura de relações de amizade que pareciam indestrutíveis, o filtro na construção de novas relações e principalmente a seletividade no campo profissional.



Nesta terça-feira (22), o jornalista PC Guimarães lança o livro "Sandro Moreyra, um autor à procura de um personagem".

Por Marta Barcellos

"Eu perdi amigos, perdi espaços de trabalho, perdi o convívio com parte da família. O golpe não foi apenas político. O golpe foi na cognição pública e nas relações pessoais e profissionais. Este é um livro sobre suas consequências, é um registro dos doze meses que o sucederam."



O desabafo-epígrafe acima - que o escritor, jornalista, psicólogo e professor de roteiro da Universidade Federal Fluminense (UFF) Felipe Pena pede para abrir esta entrevista - expõe a coragem de um profissional que sequer titubeou diante do golpe parlamentar de 2016. Como nas histórias dos heróis que resistiram ao nazismo, ou à ditadura militar brasileira, ele "apenas" fez a coisa certa. Só que este "apenas", no caso de um cronista com um importante espaço de publicação (o jornal Extra), foi escrever. E escrever não é pouca coisa quando se está disputando, com os vencedores, a narrativa da História.

Em "Crônicas do golpe", nos deparamos com personagens sombrios, histórias absurdas e, infelizmente, previsões que pareciam bastante pessimistas e se confirmaram. Mas, nesta travessia por um dos mais terríveis períodos da política nacional, o leitor conta com a leveza da crônica e os muitos recursos deste cronista em especial, que transforma alguns dos 50 textos do livro, por exemplo, em diálogos e cartas fictícias, ou cenas de roteiros cinematográficos.

Por "só" ter feito a coisa certa (sem calcular, antes, as perdas pessoais reveladas na epígrafe), o autor acredita que sua empreitada foi um mero registro do tempo. Uma modéstia, sem dúvida, típica dos verdadeiros cronistas.


Sua primeira crônica do golpe foi publicada em 3 de abril de 2016. Quando você se deu conta de estarmos vivendo um momento histórico, que merecia uma narrativa específica? Essa escrita se tornou um projeto político-literário?

Nunca pensei no livro como projeto político-literário. Acho que é apenas o registro de um tempo. Um tempo de retrocessos, como costuma acontecer nos golpes de Estado. Registrei os 12 meses seguintes ao golpe. Voltamos ao século XIX. Temas como o estado laico, a CLT, os direitos LGBT, a legislação ambiental e outras causas progressistas foram atacados de forma vil e quase irreversível. Pastores, vendedores de armas e ruralistas tomaram conta do país. É um momento histórico semelhante ao de 1964. Estamos assistindo ao triunfo do atraso e ao fim da República fundada com a Constituição de 1988. Vamos demorar décadas para desfazer esse retrocesso. A coluna de estreia no jornal Extra foi publicada em 3 de abril de 2016. É o único motivo para abrir o livro com a crônica desse dia. O restante não segue uma ordem cronológica. O golpe começou a ser gestado ainda em 2013, a partir da construção de um enredo que culpava apenas o executivo federal (incorporado na figura da presidente Dilma Rousseff) pela crise econômica. Ignoraram as pautas-bomba do legislativo, a leniência do judiciário, as sabotagens da Fiesp e o conluio entre Eduardo Cunha, Aécio Neves e Michel Temer para incendiar o país.

O gênero crônica às vezes é visto como problemático por ser datado. Mas, neste livro, acompanhamos o passo-a-passo do golpe quase com o mesmo espanto com que vivenciamos o noticiário daqueles dias. Como você conseguiu imprimir esse efeito? O mérito é do escritor ou dos fatos, que mal conseguimos digerir na época?

O mérito, ou demérito, é dos atores do golpe. Figuras como Cunha, Temer, Aécio e Gilmar Mendes são de uma torpeza incomparável. Al Capone é um beato perto deles. Em qualquer outro país do mundo todos já estariam presos. E o único que realmente está na cadeia continua a mandar no governo. Cunha é uma espécie de Marcola do Planalto Central.

Os ficcionistas têm dito que está difícil competir com a realidade, e alguns dos melhores momentos do livro acontecem justamente quando você mistura realidade e ficção, em cartas e diálogos fictícios entre personagens reais. Como surgiram essas ideias?

Quando a realidade parece ficção, a crônica surge como um gênero intermezzo, capaz de se mover com leveza, sem a preocupação lacradora do ensaio. Ela é uma despretensiosa tentativa de traduzir os eventos que formam os dias, os dias que formam os tempos e os tempos que formam o tal espírito do tempo, o nosso zeitgeist. Mas é uma tradução sem a solenidade dos historiadores e com o rigor científico de um piloto de carrinho de rolimã. Entre o golpe contra Dilma, em 2016, e a derrocada de Temer, em 2017, as panelas voltaram para a cozinha, o pato amarelo desinflou na porta da FIESP e nenhuma camisa amarela foi vista em desfiles contra a corrupção pela Avenida Paulista, apesar das provas irrefutáveis contra a quadrilha que tomou o Palácio do Planalto. Se houve um espírito do tempo, ele foi o da apatia seletiva. Este é o zeitgeist das crônicas do golpe.

Como você define "Crônicas do golpe"? É denúncia, literatura, documento histórico? É tudo isso?

É apenas o registro de um tempo. A vantagem da crônica é que o registro pode prescindir da solenidade do ensaio, embora não deixe de ser um documento histórico. Pergunto: daqui a dez ou vinte anos, alguém poderá recorrer a este livro para entender o que aconteceu no país durante os 12 meses que sucederam o golpe de 2016? Não tenho a menor ideia. Meus editores sugeriram um posfácio com informações sobre os textos, algo que situasse o leitor no contexto das metáforas e metonímias que utilizei. Mas não fui capaz de realizar a tarefa. A crônica é autônoma, não admite ser conduzida coercitivamente. O máximo que consegui foi registrar as datas de publicação dos textos.

Você intercala no livro metáforas bastante didáticas, como comparações entre política e futebol, com ironias que talvez só sejam entendidas pelos observadores mais atentos do noticiário. Para que público leitor você escreveu as crônicas do golpe?

Não escrevo para um público específico, embora o Extra seja um jornal popular, voltado para as classes C e D. O importante é jamais subestimar o leitor. Abordo temas complexos, cito autores eruditos e utilizo estratégias narrativas de outros gêneros sempre com o intuito de ser claro e não, didático. Procuro ser simples. Mas a simplicidade é a laboriosa tradução da complexidade, não pode ser confundida com superficialidade. As metáforas servem para este fim.

De citações literárias e acadêmicas a séries de TV, suas referências são bastante diversas. Esta é a tarefa do cronista: estar conectado ao seu tempo? Como isso se dá na rotina da escrita?

Sou um estivador de sapatilhas. Escrevo e reescrevo todos os dias, com disciplina, cartesianamente, impondo-me um regime de trabalho como se fosse o senhor de engenho de mim mesmo. Não sou um bailarino clássico, como o Vargas Lhosa, o Veríssimo ou o Cony, que também trabalham muito, mas têm os pés naturalmente talhados para o ofício e mostram um talento quase mediúnico ao executar os passos mais sensíveis. Ainda assim, preciso calçar as sapatilhas para carregar os sacos de arroz que chegam ao cais do porto, porque se usasse botas não conseguiria dançar.

Marta Barcellos
Marta Barcellos  


Em um dos textos, você reconhece o risco de ser tragado pela "espiral do silêncio", que se instala quando as pessoas escondem opiniões contrárias à ideologia dominante. Houve alguma alteração nesses "ventos"? Nessas alturas, você se arrisca a fazer alguma previsão política?




Quem acompanha minha carreira na TV, sabe o que aconteceu quando me recusei a repetir o discurso dominante produzido pela espiral do silêncio. Mas não quero fazer disso um campo de batalha. As emissoras têm o direito de escolher os comentaristas com quem desejam trabalhar. Obviamente, ainda gostaria de ter um espaço na TV para expressar opiniões divergentes do senso comum, mas não depende de mim. O modelo CNN de debate, que funciona muito bem ao permitir o diálogo entre opostos, poderia ter sua versão brasileira. Mas, nas emissoras nacionais, não percebo um real interesse em debater. Os comentaristas só concordam entre eles. Não há divergência. E, sem divergência, não é debate, é convenção de cosméticos.

Em outra crônica ("Quem tem medo de Gilmar Mendes?") você expõe o autoritarismo do poder judiciário de forma semelhante àquela que Chico Buarque usava em suas canções para driblar a censura. Você chegou a ser processado ou intimidado de alguma forma? E quanto aos ataques online?

Não posso responder à primeira pergunta. E isso, obviamente, já é uma resposta. Sobre os ataques, fiz um arquivo com as belíssimas declarações de amor dos bolsominions e outros seres da mesma fauna. Elas merecem um estudo mais aprofundado. Pode ser que eu prepare um livro de ensaios sobre o tema. Irá para a prateleira de ciências naturais.

Os romances da "Trilogia da mídia", que você está preparando, de alguma forma dialogam com estas crônicas? A trilogia será a próxima obra ou estão previstos outros lançamentos antes?

O primeiro romance da trilogia da mídia está quase pronto. Pretendo publicá-lo em setembro do ano que vem, mas gostaria que saísse no Brasil e em Portugal ao mesmo tempo. O romance é narrado pelo filho do ourives português Ubaldo Diniz Oliveira. Ubaldo chega ao Brasil em 1953 para trabalhar como assistente do empresário Assis Chateaubriand na recém-fundada TV Tupi, mas é demitido no ano seguinte, quando se recusa a produzir reportagens contra o presidente Getúlio Vargas. Pelas lentes de seu filho, que, na virada do século XX para o XXI, torna-se diretor da maior rede de televisão do Brasil, acompanhamos as transformações na vida de Ubaldo a partir do suicídio de Vargas, passando pelo golpe militar no Brasil e a revolução dos Cravos na Lisboa de 1974. Portanto, são também as lentes da TV que narram os fatos. O que temos, então, são apenas simulacros da história. Mas será possível narrar qualquer história sem cair nos simulacros e estereótipos produzidos pela imagem? Ao narrar a história do pai e de seus antepassados, o filho de Ubaldo percebe a impossibilidade de fugir dos rótulos impostos pela própria linguagem. Apesar das pretensões de poder narrativo que um diretor de TV imagina ter, resta-lhe a angústia das próprias impossibilidades: "Os outros são nossos narradores. Não há fuga possível para o discurso alheio que nos constrói. Estamos à mercê dos advérbios que não queremos, dos adjetivos que não merecemos, dos pronomes que não escolhemos. Nossa história não nos pertence."


Editora Record

*Crônicas do golpe" chega às livrarias em agosto, pela Editora Record.

 

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