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Sábado, 01 de Maio de 2021

Crítica & Literatura: É reconfortante rever um grande amor

É reconfortante rever um grande amor




Por Olga de Mello*

No tempo em que recebia visitas (pré-pandemia), cansei de ouvir uma sequência recorrente de perguntas dos que entravam em meus domínios. Seguindo as exclamações de surpresa pelo número de livros distribuídos por algumas estantes, vinham as indagações: "Você já leu isso tudo?/Por que você guarda tantos livros?/Não preferia armazenar tudo num Kindle, que não ocupa espaço?".

Depois das respostas entremeadas por sorrisos ("Não/Porque gosto/Não"), eu me dedicava a tentar fazer o querelante compreender que tenho o hábito de reler livros, assim como revejo filmes incontáveis vezes. Nem todas as releituras são prazerosas, algumas até decepcionam, à segunda ou terceira vistas.

Talvez a principal dessas releituras que sempre me encantam como se fosse um novo amor é Crônica de uma morte anunciada (Record, R$ 40), minha obra favorita de Gabriel García Márquez. Como quase tudo o que Gabo escreveu, é um "vira-página" danado. Nosso primeiro encontro foi dentro de um ônibus, um 464, que me levava de Ipanema à Praça Onze, onde eu trabalhava, nos anos 1980. Em torno de quarenta minutos depois (no Rio de Janeiro dos anos 80, atravessar a cidade era passar por diversos engarrafamentos; não havia corredor especial para ônibus), sem ligar para os viajantes cobertos de areia molhada da praia (ah, o verão carioca!), eu chegava ao fim daquela novela, inebriada pela narrativa cinematográfica, o relato dos últimos momentos de vida de Santiago Nazar, que se levantara às 5h30 para "esperar o navio em que chegava o bispo". As testemunhas da tragédia contam ao leitor quem era Santiago, seu trajeto até a emboscada de seus assassinos, o motivo que o levou a ser morto aos 21 anos.


Nas últimas quatro décadas, li a Crônica pelo menos seis vezes, guardando longos intervalos entre as leituras - o que me permitiu usufruí-las com um sorriso de reconhecimento no canto da boca, um olhar de cumplicidade e um deleite poucas vezes experimentado ao me deparar com outros autores. Esse distanciamento temporal é importante, no meu caso, para recordar o enlevo que aquelas palavras me proporcionaram, para ser novamente enredada pela mágica realista de Gabo.
Reler é um risco, sempre, até em não-ficção, principalmente porque no imediatismo desta era, tendemos a desdenhar do que foi problema no passado. Outro de meus frequentes reencontros é com O mito da beleza (Rosa dos Tempos, R$ 38,89), de Naomi Wolf, que levou mais de vinte anos sem reedição no Brasil, mas, alvo de consultas frequentes para estudos acadêmicos sobre a condição feminina, teve uma versão aberta na Internet.


A pesquisa meticulosa sobre a estética como forma de controle sobre a mulher no Ocidente na década de 1980 continua atual - se não pior. Artigos sobre dietas, ginástica, maquiagem e guias de comportamento sexual são os chamarizes das revistas dedicadas ao público feminino, embora o assédio hoje tenha legislação que pode coibir sua prática. Surpreendente foi reler a edição comemorativa de 20 anos de Os monólogos da vagina (Globolivros, R$ 24,90), de Eve Ensler, e ver que o mundo mudou menos ainda de 1996 para cá. Os estupros talvez não tenham aumentado, mas sido mais denunciados que antes - o que é uma evolução, porém às mulheres ainda se exigem a execução de tarefas e posturas jamais solicitadas aos homens.


Por isso surpreende cada leitura do belíssimo romance autobiográfico de Marguerite Duras, O amante (Tusquets, R$ 26), no qual a autora recorda seu primeiro envolvimento amoroso, aos quinze anos, em Saigon, com um milionário chinês. Estimulada pela família, que vê no caso uma maneira de saírem das dificuldades financeiras, a jovem vive um relacionamento alicerçado nas desigualdades sociais e raciais, imbuído de todos os preconceitos dos anos 1930. Traduzido em 140 países, ganhador do prêmio Goncourt de 1984, o best-seller vendeu 2 milhões e meio de cópias só na França e teve uma nova versão da própria Duras, que juntou novas observações pessoais às indicações para a adaptação cinematográfica assinada por Jean-Jaques Annaud em O amante da China do Norte (Nova Fronteira, R$ 13,80). Reler os dois volumes, a cada dez, doze anos, traz a mesma sensação de desconforto e êxtase guardada na memória dos grandes amores.



* Olga de Mello é jornalista, cronista e escreve aos sábados em Conexão Jornalismo.

 

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