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Sábado, 29 de Dezembro de 2018

Crítica & Literatura: O combate às crises da existência

O combate às crises da existência



Por Olga de Mello*

A temporada de férias começa e é o momento de se refestelar na rede para botar a leitura em dia. Quem considera os livros gêneros de primeira necessidade já fez seu estoque para a virada do ano. Apesar da flagrante redução nos lançamentos, novas edições de marcos literários ainda fazem a festa do leitor, como a que comemorou os 80 anos de "Vidas Secas" (Record, R$ 69,90), de Graciliano Ramos. O volume traz, além do texto integral, o manuscrito original com as emendas escritas por Graciliano, que, diz a lenda, a cada nova edição cortava mais um pouco da saga da família de retirantes nordestinos que busca sobreviver em face da seca.






Sobreviver num ambiente frequentemente hostil é o que buscam também os personagens de "Lá não existe lá"(Rocco, R$ 49,90), romance de estreia de Tommy Orange, descendente de indígenas norte-americanos. A sensação de não-pertencimento de um grupo dos chamados "índios urbanos" da Califórnia é enfatizada pela representação dos indígenas pela cultura dominante, que os mostra como sábios ligados à natureza, mesmo quando nasceram e cresceram nas metrópoles. As dificuldades de integração são demonstradas no encontro para uma festa folclórica em que boa parte das crianças participará apresentando danças típicas aprendidas no YouTube.




A adaptação à nova realidade por mulheres que decidem assumir as funções dos maridos, mortos acidentalmente quando estavam prestes a assaltar um carro-forte, é o eixo de "As Viúvas" (Intrínseca, R$ 49,90). O thriller de Lynda La Plante, adaptado para o cinema em filme estrelado por Viola Davis, junta três mulheres de temperamentos, idades e estilos de vida bem diferentes que esperam manter a independência financeira seguindo o detalhado roteiro de assaltos que os companheiros deixaram arquivados. As anotações são cobiçadas por concorrentes nas atividades ilegais, que passam a perseguir as viúvas com tanta persistência quanto policiais londrinos.





O anticonvencionalismo de mulheres em relação ao papel social feminino também está em "Filha da fortuna" (Bertrand Brasil, RS 49,90), de Isabel Allende. Lançado há 30 anos, o romance, que ganhou nova capa em sua 12ª edição brasileira, conta a história de Eliza Sommers, abandonada ainda bebê na Valparaíso do século XIX. Criada como filha por um casal de irmãos ingleses, ela segue o namorado, que vai para a Califórnia em busca de ouro, em 1849, como muitos chilenos. Viajando clandestina num navio, Eliza não teme partir numa aventura, abandonando a vida tranquila de burguesa abastada, sem ligar para os comentários ou a revolta da própria família.




Aventuras não faltaram na rotina do escritor Frederick Forsythe que, na autobiografia "O outsider - Minha vida na intriga" (Record, R$ 54,90), se apresenta como jornalista, a profissão que seguiu ao deixar a carreira de piloto na Força Aérea britânica. Pesquisador meticuloso para montar seus thrillers, ele alcançou fama - e fez fortuna - com "O dia do Chacal", nos anos 1970, depois de uma década dedicada ao jornalismo, trabalhando para a agência Reuters, a BBC e a revista Time, entre outros veículos, como correspondente em Paris, na Alemanha Oriental, na Tchecoslováquia e na cobertura da guerra entre Nigéria e Biafra. A experiência como repórter lhe deu a base para ver todos os ângulos de uma história e a afirmar que "um jornalista jamais deve se unir ao establishment (...)", mas precisa manter a distância, "observando, anotando, sondando, comentando", sem jamais tomar parte: "Em resumo, um outsider". Uma lição para quem quer contar as histórias das vidas alheias.



Um bom 2019, com leituras que combatam as crises da existência, sempre!







* Olga de Mello é jornalista, cronista, crítica literária e escreve aos sábados em Conexão Jornalismo

 

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