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Sábado, 24 de Agosto de 2019

Crítica & Literatura: Mulheres em revolta


Mulheres em revolta



Por Olga de Mello*

A frustração feminina inquieta a literatura desde Emma Bovary, mãe de personagens cujas semelhanças na insatisfação ultrapassam fronteiras geográficas. A atualidade do tema não prescreve, mas já causou escândalo discutir o direito à satisfação sexual, como fazia a francesa Colette em seus romances no início do século XX. Desconhecida por boa parte dos leitores de hoje, Colette fez sucesso tanto por seu comportamento libertário quanto pela temática ousada para seu tempo. Seus primeiros livros foram lançados a partir de 1900, sob o nome do marido. Especializou-se em personagens marginalizadas, sem qualquer dilema moral, o que jamais fez parte de suas preocupações. Um de seus mais conhecidos títulos de Colette, A ingênua libertina (Nova Fronteira, R$ 59,90) traz uma jovem da alta burguesia em busca da descoberta do o prazer sexual com diferentes amantes, já que o marido não a satisfaz.


Na adolescência, ela fugiu de casa uma noite, em busca de um sem-teto por quem mantém uma paixão platônica. Por imposição da família, acaba se casando com o primo, que gosta dela desde criança e compreende o "mau passo" da noiva - que não chega a encontrar o amado e nem sofre qualquer sevícia. Evitado o escândalo, ela se entedia ao lado do marido.

O marketing de intelectual "maldita", irreverente e vanguardista - bissexual, casou-se três vezes, teve caso amoroso com o enteado adolescente, deixou a filha ao cuidado de governantas, dizendo-se sem vocação para a maternidade - escandalizava a sociedade, ajudava a venda de livros, impulsionada também por sua inclusão no índex do Vaticano. Admirada pelos críticos de sua época, ganhou a Legião de Honra e teve um enterro com honras de chefe de Estado.

Nem todos os seus contemporâneos a louvavam. O escritor François Mauriac, no entanto, via Colette como uma "criatura carnal e pagã" que "nos faz desejar caminhar para Deus". Mauriac era o contraponto de Colette: católico e obsecado com a culpa, baseou-se num episódio real para criar sua obra-prima, Thérèse Desqueyroux (José Olympio, R$ 34,90 ), que também mostra uma protagonista sufocada pela vida vulgar.



Inocentada judicialmente da tentativa (real) de envenenamento do marido, um burguês que ela despreza, Thérèse demonstra um carinho quase homossexual pela cunhada. Nada tem em comum com o marido, um moralista com quem detesta fazer sexo.

Engravida, intervém no namoro inadequado da cunhada com um descendente de imigrantes, desdenhado pela família e dá veneno para o marido. Ele sobrevive e a aprisiona em casa, sem contato com qualquer pessoa fora os empregados. Mas Thérèse não sente falta de ninguém, sequer da filha recém-nascida. Aguarda a liberdade, apenas.


Embora escrito por um homem e repleto de personagens misóginos, a voz de Thérèse surge com tanta autenticidade quanto as protagonistas sequiosas pela satisfação pessoal de Colette. O vazio existencial, o desejo romântico por aventuras e grandes acontecimentos é maior do que a desilusão com o marido medíocre. Thérèse não precisa explicar sua atitude à família, que só pretende puni-la. Aparentemente, todos entendem - e condenam - sua revolta silenciosa. A personagem é retomada em outros romances de Mauriac, que ganhou o Nobel de Literatura em 1952, prêmio que Colette, indicada cinco anos depois, não levou.



* Olga de Mello é jornalista, cronista, crítica literária e escreve aos sábados em Conexão Jornalismo.

 

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