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Sábado, 24 de Março de 2018

Crítica & Literatura: Duas mulheres do mundo

Duas mulheres do mundo




Por Olga de Mello*

O sorriso que intriga o mundo há mais de 500 anos foi esboçado por uma mulher, cuja existência banal é motivo de dúvidas e especulações há um século. Autorretrato de Leonardo da Vinci travestido, chave para segredos da vida na terra são algumas das lendas e teorias cercam a Mona Lisa, pintura que coleciona superlativos desde que arrebatou a curiosidade mundial, a partir de 1911, quando foi roubada do Museu do Louvre e a imprensa fez um estardalhaço, catapultando a fama do quadro. Os muitos mistérios que cercam o quadro são levantados pela jornalista Dianne Hales, ao falar de Lisa Gherardini em "Mona Lisa, a mulher por trás do quadro "
(José Olympio, R$ 54,90).



A pesquisa de Dianne Hales não se atém apenas a dados biográficos de Lisa Gherardini, que se casou aos 14 anos com o negociante florentino Francesco Del Giocondo. Teve seis filhos, morreu aos 63 anos, mas sua identidade como retratada por Leonardo da Vinci ainda é posta em dúvida. A jornalista, no entanto, explica que procurou descobrir quem foi Lisa Gherardini Del Giocondo, apesar dos que torcem por "pode-ser-qualquer-uma-menos-Lisa" a modelo da pintura. Além de aristocratas e cortesãs, a Mona Lisa poderia ser segundo um egiptólogo, a representação da deusa Ísis, "a reencarnação da mãe de Leonardo (esta é a teoria de Freud), (...) ou a descrição de um amante masculino chamado Salaì", diz Dianne Hales.



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Ao optar por traçar a trajetória da mulher de um homem rico, a autora levanta também a genialidade do talentoso Leonardo, inventor, anatomista, desenhista, engenheiro e arquiteto, além de descrever os costumes de uma época de intensa evolução científica, quando as cidades italianas davam os primeiros passos na Idade Moderna. A condição feminina, então, ainda que obliterada dentro de um universo dominado pelos homens, era, essencialmente, a de reprodutora da espécie. As numerosas gestações levavam à morte prematura de muitas mães, morriam em consequência de tantos partos. Uma curiosidade à parte é a literatura sobre sexualidade publicada, então: além de obras eróticas, havia guias de conduta sexual, assinados por médicos, que, algumas vezes, contradiziam as determinações da poderosa Igreja Católica que tratava o sexo como uma obrigação para a propagação da humanidade.

Se Leonardo é o símbolo do homem renascentista, explorando ao máximo todas as suas potencialidades, a escritora Maya Angelou é a síntese da mulher contemporânea, que supera qualquer entrave social para viver sua liberdade, exercendo diferentes papeis. O autobiográfico "Mamãe & Eu & Mamãe" (Rosa dos Tempos, R$ 37,90) fala da relação entre Maya e sua mãe, Vivian, com quem só conviveu a partir da adolescência. A infância, passada ao lado do irmão e da avó paterna, é marcada por um estupro aos 7 anos, que deixou a menina muda até recomeçar a se relacionar com o mundo através da produção de poesia. A anticonvencional mãe de Maya foi uma das principais incentivadoras da independência da filha, que trabalhou como motorista de ônibus, dançarina, garçonete, cozinheira e roteirista, antes de fixar-se na literatura. Sem o menor pudor, Maya fala sobre a construção tardia da relação com sua mãe, num texto que mescla em doses perfeitas a objetividade com a emoção.



* Olga de Mello é jornalista, cronista, crítica literária e escreve aos sábados em Conexão Jornalismo

 

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