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Sábado, 23 de Março de 2019

Crítica & Literatura: A sobrevivência do efêmero

Por Olga de Mello*


De tempos em tempos, nos anos 1960, um escritor entrava na moda. Encantava a crítica, conquistava o público, era cotado para Pulitzer, quiçá Nobel. Os americanos estavam na proa. Ganhavam seus prêmios, vendiam bem e sempre havia Norman Mailer prestes a escrever o grande romance americano, J.D. Salinger sumido depois de meia dúzia de livros maravilhosos, Truman Capote e o new journalism, John Updike falando sobre as mazelas nacionais. Entre tantos outros, em 1969, o texto irônico e delirante de Kurt Vonnegut Jr causava furor com "Matadouro 5" (Intrínseca, R$ 44,90), um romance antibélico lançado quando os Estados Unidos enviavam tropas de intervenção ao Vietnã. Para discutir a brutalidade da vida diante da morte, ele relembra o incômodo episódio do bombardeio dos Aliados sobre a cidade de Dresden, na Alemanha, matando 25 mil civis, em fevereiro de 1945. Dois meses depois, os nazistas se renderam.

Nenhum dos escritores que buscavam novas formas de narrativa vendeu como Erich Segal, com o best-seller "Love Story", sequer chegou perto da popularidade de Arthur Hailey, o autor de "Aeroporto", ou dos que produziam chamada "literatura de entretenimento". Ricos e, naquele momento, famosos, esses autores caíram num razoável ostracismo do qual despertam quando alguém encontra resumos de seus livros naqueles dias chuvosos de férias, no sítio ou na casa de praia, em algum volume da Biblioteca da Seleções do Reader's Digest.



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O esquecimento era possibilidade que assombrava o britânico W. Somerset Maugham, cuja imensa popularidade não conquistava a crítica de seu tempo. Por sorte, suas histórias levadas para o cinema tiveram excelentes resultados, talvez porque Maugham dominasse a construção de tramas. Para Nick Hornby, ele próprio um autor que chamou a atenção com títulos como "Um grande garoto" e "Alta Ansiedade", nos anos 1990, escritores hoje considerados clássicos ficaram na literatura não por revolucionarem a narrativa, mas pela excelência ao contar histórias que fascinam o leitor. Em Confissões (Biblioteca Azul, R$ 59,90), lançado em 1938, Somerset Maugham expressava sua preocupação em ser um dos autores mais editados da língua inglesa, sem o aval de especialistas em literatura. "A imortalidade, em matéria de produção literária, dura, quando muito, alguns poucos séculos e depois não passa (...) das salas de aula. (...) Quando eu era moço, George Meredith e Thomas Hardy pareciam ter assegurada a sobrevivência. Pois não significam lá muita coisa para os jovens de hoje em dia", lamentava Maugham, temendo seu próprio anacronismo futuro.


Se hoje há uma profusão de experimentos em busca de novas formas de narração, a americana Kristen Roupenian segue o consagrado para retratar sua geração. A fama chegou em 2017, quando publicou o conto "Cat Person", que descreve o envolvimento breve de um casal da atualidade, na revista The New Yorker. Admiradora de ficção científica e de Stephen King, ela fala sobre sua geração urbana, sofisticada, levemente arrogante e insegura, cujos hábitos sociais e sexuais estão muito próximos do risco pessoal. As referências culturais contemporâneas se combinam para delinear personagens desencontrados, impulsivos, que adotam comportamentos inusitados, alguns nitidamente perversos ou abusivos. Nada muito diferente do que fez Henry Miller nos anos 1930, porém, sem a aura de maldito ou tentando chocar a burguesia. O tom, certamente, é mais assustado do que a crueza de Miller, quase ingênuo, embora conte alguma perversidade. A inquietude de Kristen pode ser conferida nas doze histórias reunidas em "Cat Person e outros contos" (Companhia das Letras, R$ 44,90). Numa época em que o efêmero é elemento do cotidiano, seus contos têm a marca da observação social que garantem a imortalidade sonhada pelos criadores.



* Olga de Mello é jornalista, cronista, crítica literária e escreve aos sábados em Conexão Jornalismo.

 

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