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Sábado, 08 de Agosto de 2020

Crítica & Literatura: A fome e a vontade de comer

Por Olga de Mello

Entre as mais agradáveis atividades de quem se isolou durante a pandemia, tanto quanto ler, assistir a filmes, séries ou dedicar-se à jardinagem, está a alimentação. Boa parte dos glutões não tem o menor apreço para a literatura gastronômica, nicho restrito ao leitor de bom poder aquisitivo. Um livrinho de receitas repleto de imagens de belas mesas com decoração requintada e pratos onde se equilibram lascas de vegetais apoiando minúsculas porções de produtos alimentícios custa quase tanto quanto uma refeição leve preparada pelo autor da obra. Aos demais, que preferem comer a preparar delícias, há um segmento dentro desse nicho dedicado à apreciação e à experiência relacionada ao simples ato que nos permite sobreviver.



Cozinheira bissexta, medíocre e desastrada, guardo apreço por livros como A deliciosa História da França - As origens, fatos e lendas por trás das receitas, vinhos e pratos franceses mais populares de todos os tempos (Seoman, R$ 47,99), do mestre queijeiro francês Stéphane Hénaut e da historiadora americana Jeni Mitchell. O casal já morou em Londres e hoje se divide entre a Alemanha e a França, o que confere ao livro um olhar menos nacionalista em relação a um dos principais traços identitário francês - a culinária. Os autores rejeitam as lendas puristas da criação francesa na mesa: até o vinho, lembram, foi levado para a Gália pelos romanos, há mais de dois mil anos, conquistando os gauleses que, até então, bebiam algo semelhante à cerveja da atualidade. O próprio vinho passou por diversas modificações e aprimoramentos, desde que os gauleses começaram a transportá-lo em barris de carvalho, o que melhorou o armazenamento e agradou aos paladares. Hénault e Mitchell enfatizam o amálgama de sabores e costumes internacionais que resultou na gastronomia francesa: vinhedos herdados dos romanos, doces aprendidos com os austríacos, chocolates mexicanos, a dependência da cozinha provençal dos tomates, importados das Américas, além dos cafés vindos da Turquia.

No entanto, para o confeiteiro David Lebovitz, o único problema na mesa francesa está no café. Embora os Estados Unidos sejam conhecidos como grandes consumidores de café ruim, segundo Lebovitz, americano radicado em Paris, os franceses desconhecem o preparo da bebida, que deveria, a seu ver, seguir a tradição italiana. Em A doce vida em Paris (Tapioca, R$ 37,90), há receitas francesas que o autor experimentou, acompanhando suas impressões de expatriado quanto ao lendário mau-humor dos nativos, além de sua rendição aos costumes da terra. Entre eles está trocar a camiseta furada de usar em casa e vestir-se com elegância na hora de jogar o lixo fora, pois a cidade "sim, julga as aparências". As divertidas crônicas sobre os hábitos de um povo que fura filas como se disputasse uma competição esportiva e cujos comerciantes jamais oferecem "provinhas" dos produtos à venda, mostram as tentativas de Leibovitz de tornar-se "um local". Ele tem conseguido, a ponto de indignar-se com um compatriota que, ao fim de um jantar, quando todos os convidados, em silêncio reverente, observavam a tábua de queijos, decidiu fatiar as iguarias em cubinhos, como se fosse servir em palitos "numa inauguração de galeria, acompanhado por taças de Montains Chablis".

Cozinheiros que gostem da história de cada prato vão se encantar com Caderno de receitas tradicionais da Toscana (Disal, R$ 32), de Pierluigi e Giulia Pianigiani. Ilustrações coloridas em todas as páginas, que têm linhas, como se o leitor tivesse em mãos realmente um caderno com as receitas da família, o texto fala da cultura toscana, de festas medievais e de uma culinária com mais de 2.500 anos na região onde os etruscos, em 135 aC, duas vezes por dia, arrumavam taças de prata nas mesas suntuosas sobre tapetes multicoloridos. Segundo os autores, a cozinha toscana foi exportada para a França em 1.500, porém sua internacionalização não modificou o respeito aos pratos tradicionais, simples e prontos a empanturrar o povo que vivia da agricultura. Raras são as receitas - nutritivas, saudáveis e de fácil preparo - que dispensam o pão toscano como ingrediente. Um convite ao leitor para arriscar seus dotes de chef.



* Olga de Mello é jornalista, cronista e crítica literária

 

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