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Sábado, 22 de Junho de 2019

Crítica & Literatura: A Alma Traidora

Dame Judi Dench interpretou Melita no cinema
Dame Judi Dench interpretou Melita no cinema

A alma traidora




Por Olga de Mello*


Em 1999, o serviço secreto inglês descobriu que Melita Norwood, uma respeitável avó de 87 anos, era a espiã com o maior tempo de serviços destinados à União Soviética, ao longo da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria. Quando a incrível história de Melita veio a público, inspirou Jennie Rooney a criar A espiã vermelha (Record, R$ 35,90), um romance que vai além do habitual thriller, escorado em cenas de ação e reviravoltas surpreendentes. A adaptação cinematográfica tem Dame Judi Dench no papel principal.



É por descrever uma personagem tão banal que o romance se destaca num universo de protagonistas masculinos charmosos e sedutores, sempre prontos a empregar força bruta ou armas sofisticadas para resolver problemas. Existem homens atraentes no universo descrito por Jennie Rooney, mas a narrativa está centrada nas recordações de Joan, a pacata anciã que escondeu sua vida da própria família. Deixando de lado maquinações de gente arguta para entregar informações confidenciais a outros países, a autora, uma advogada com formação em História, mostra como a ambiguidade se torna uma forma de vida. Se a espiã do mundo real era filha de comunistas e dedicada a atividades ilegais por formação pessoal, a "Red Joan" do título original se converte à causa com muita relutância, influenciada pelo namorado, um estudante russo, seu colega em Cambridge.


A universidade, que nos anos 1930, levou à formação dos Cambridge Five, o grupo de espiões soviéticos infiltrados no serviço secreto britânico, é apresentada no romance como incubadora de traidores, absolutamente convictos, desde quando Hitler e Stálin são aliados, da necessidade de ampliar o comunismo entre as nações. Joan não compartilha das mesmas certezas que os amigos, como um graduado funcionário do Ministério de Relações Exteriores, cujo envolvimento com a KGB é descoberto em 2005. Depois que ele morre, o serviço secreto procura Joan, oferecendo imunidade caso ela confirme as denúncias contra o ex-colega. Em suas lembranças, Joan se esforça em encontrar uma justifica plausível para explicar ao filho, um advogado de meia idade, os motivos que a levaram a cometer traição.

A vovó de 87 anos que é a última espiã da guerra fria
A vovó de 87 anos que é a última espiã da guerra fria   


A principal distinção entre Melita Norwood e Joan Stanley está, basicamente, na certeza. Enquanto Melita tinha uma sólida base ideológica, Joan se angustia por trair o país, embora acredite em evitar a destruição da civilização se impedir que apenas um dos lados da guerra ideológica domine a corrida armamentista. Duas tramas correm paralelamente, entremeadas pelos flashbacks de Joan: as ações de espionagem, a cooptação dos agentes e o que se faz para manter sigilo sobre as operações se desenvolvem enquanto a protagonista se apaixona por dois homens. Já o tormento pelo segredo e pela traição, que deveria ficar no passado, ressurge e compõe a personagem de rara densidade no gênero literário.




* Olga de Mello é jornalista, cronista, crítica literária e escreve aos sábados em Conexão Jornalista.

 

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