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Segunda-feira, 09 de Março de 2020

Eles não são Spike Lee: diretores protestam contra ausência de negros no filme de Marielle

Antonia e Spike Lee: sem xerox
Antonia e Spike Lee: sem xerox

A frase infeliz de Antoniaa Pellegrino, que em entrevista disse que no Brasil não há Spike Lee (o diretor negro americano que conseguiu quebrar algumas barreiras do preconceito), gerou alvoroço na classe. Em uma nota de repúdio, diretores, produtores, roteiristas e profissionais de outras áreas endossaram as críticas à escolha de autora do filme sobre Marielle, um ficcional, que foi encampado pela Rede Globo. Pellegrino admitiu que foi infeliz ao falar sobre a ausência de um Spike Lee, mas atribuiu sua fala a uma crítica contra o racismo estrutural.



Nota de repúdio:


Na sexta-feira, 6 de março de 2020, anunciaram uma série ficcional baseada na vida de Marielle Franco, cujo assassinato em 2018 continua sem respostas. Acontece que o projeto anunciado é encabeçado por três pessoas brancas. A roteirista Antonia Pellegrino ("Sexo e as Negas", "Bruna Surfistinhas" e "Tim Maia"), George Moura ("Onde Nascem os Fortes", "Amores Roubados" e "O Canto da Sereia") e José Padilha.

É revoltante. No entanto, numa sociedade capitalista, não surpreende que a história de uma mulher negra seja contada a partir do ponto de vista de três pessoas brancas. A única surpresa é o fato de terem demorado tanto para anunciar o projeto, visto a sanha que têm de se apropriar dessa história há tanto tempo.

Mas o desastre fica maior a cada detalhe. O diretor escolhido para comandar a série é o homem que deu e dá ferramentas simbólicas para a construção do fascismo e genocídio da juventude negra no país. É uma violência extrema envolver numa série sobre Marielle o autor de filmes que retrataram de forma heroica a polícia mais violenta do país. Para se ter uma ideia, após "Tropa de Elite", as inscrições no Bope aumentaram vertiginosamente. O retrato ali inspirou e inspira ações violentas em todo o país. Não à toa, a música tema da tropa no filme apareceu em dezenas de vídeos de apoio ao presidente em exercício. É o filme que mais exaltou o tema "bandido bom é bandido morto", simplificando a discussão da violência urbana a uma questão de polícia.

Além disso, ficcionalizar em torno de um crime que ainda está sendo investigado também é uma violência e uma naturalização do crime violento e dos 13 tiros disparados contra o carro de Marielle, que vitimaram ela e o motorista Anderson Gomes.

Depois disso, Padilha ainda dirigiu a série "O Mecanismo", cujas falsificações históricas só fizeram recrudescer o discurso fascista que resultou no governo mais autoritário e violento das últimas décadas no Brasil.

É revoltante mais uma vez ver a branquitude disfarçar de boas intenções a apropriação da imagem de uma mulher negra lésbica, favelada, mãe, filha, irmã e esposa. Para defender sua propriedade de contar a história de Marielle, Antonia Pellegrino usou como argumento: "eu a conhecia muito bem", "eu ajudei na sua primeira campanha", "eu segurei o seu caixão".

Mas a mesma pessoa que diz ter se inspirado em Marielle e diz ter respeito pelo feminismo negro, se lança como arauto para contar essa história aliada aos seus pares, masculinos e brancos. Tudo isso é extremamente violento. É um desrespeito a tudo que Marielle defendia.

Se qualquer uma dessas pessoas tivesse entendido de fato a luta de Marielle, saberia o quão violento é fazer esse projeto encabeçado apenas por pessoas que não refletem sua imagem e semelhança. Existe um valor simbólico e financeiro em contar essa história. Um valor que vai ficar na mão daqueles que sempre dominaram o audiovisual no Brasil.

Ter em algum momento convivido ou lutado ao lado de Marielle não tira o peso da decisão de se apropriar da história dela dessa forma.

Padilha disse em entrevista ao "O Globo" que "se dedicou por muito tempo a histórias de violência urbana do Rio. Essa é uma que precisa ser contada". A história de Marielle é muito mais do que apenas a violência institucional. Ela é muito mais do que uma vítima da violência urbana que tentam fazer parecer. Seu assassinato é o reflexo da necropolítica que ela denunciava.

A história de Marielle é também a história das tecnologias afetivas, pois Marielle sempre falou sobre afeto, empatia, mulheres lutando juntas, jovens negras movendo estruturas. A branquitude quer se apropriar e narrar essa história sem ao menos entender sobre o que ela é. Tudo isso é desesperador demais.

Às mulheres e homens pretos e lésbicas foi negado o direito de contar essa história. Pois ainda que o racismo estrutural e institucional tente nos paralisar, homens e mulheres negros e negras se tornaram grandes realizadores, comandando produções e recebendo reconhecimento aqui e fora o Brasil. Por isso, é ainda mais perverso saber que essa história só será contata se for produzida por essas pessoas, pois o racismo produziu mecanismo para distanciar pessoas negras do direito de contar a própria história.

Quem trabalha no audiovisual conhece bem as estratégias perversas da branquitude que domina esse meio e entende o código por trás de afirmações "bem intencionadas" sobre transformar a série numa "escola". Isso significa que as decisões finais serão todas tomadas por brancos e que os profissionais não-brancos da equipe terão no máximo o direito de brigar e adoecer tentando deixar a narrativa menos racista, sendo subjugados pelo tokenismo.

Marielle, em sua última fala pública, contou a respeito da prefeitura do Rio: "primeiro eles saem chutando a porta, depois eles pedem desculpas e por último oferecem um microcrédito, que não repara nada". Esse é o modus operandi da branquitude. Se apropriar como se tudo a ela pertencesse: nosso corpos, nossa subjetividade, nossa história. É um desastre, é violento e racista.

Assinam a nota:

1 - Ana Julia Travia - Roteirista e Diretora.
2 - Maíra Oliveira - Roteirista e Dramaturga.
3 - Mariani Ferreira - Roteirista.
4 - Renata Martins - Roteirista e Diretora.
5 - Myrza Muniz - Roteirista.
6 - Carol Rodrigues - Roteirista e Diretora.
7 - Jeferson da Silva Brum - Produtor e Distribuidor.
8 - Gautier Lee - Roteirista e Diretora.
9 - Ulisses da Motta Costa - Diretor.
10 - Luiz Santana - Roteirista.
11- Juliana Balhego - Realizadora Audiovisual.
12 - Phelipe Caetano - Roteirista.
13 - Adriana Silva - Produtora e Roteirista.
14 - Lorena Montenegro - Roteirista e Crítica de Cinema.
15 - Maitê Freitas - Jornalista.
16 - Viviane Pistache - Roteirista, Doutoranda e Crítica.
17 - Mariana Luiza - Roteirista e Diretora.
18 - Thaise de Oliveira Machado - Diretora de Arte
19 - Daniel Ramos - Antropólogo.
20 - Bruno dos Anjos Soeiro de Souza - Diretor de Fotografia.
21 - Paulo Souza - Atriz.
22 - Laís Werneck Oliveira - Produtora.
23 - Manuela da Fonseca Miranda - Atriz.
24 - Frederico Rosa da Paz - Produtor.
25 - Daniela Israel - Produtora e Diretora.
26 - Cibele Amaral - Roteirista e Diretora.
27 - Gabriella Padilha Scott - Realizadora Audiovisual.
28 - Roberta Rangel - Atriz e Realizadora.
29 - Jessica Queiroz - Diretora e Montadora.
30 - Julia Tolentino - Realizadora Audiovisual.
31 - Maria Clara - Roteirista e Publicitária.
32 - Caroline Moreira - Empreendedora.
33 - Jonathan Raymundo - Produtor do Wakanda in Madureira.
34 - Carmen Faustino - Escritora e Produtora Cultural.
35 - Tabatha Sanches - Cantora e Professora.
36 - Kelly Adriano de Oliveira - Antropóloga, Educadora e Gestora Cultural.
37 - Eliana Alves Cruz - Escritora e Jornalista.
38 - Sabrina Fidalgo - Roteirista e Diretora.
39 - Luciana Damasceno - Atriz e Roteirista.
40 - Bianca Joy Porte - Atriz e Roteirista.
41 - Jorane Castro - Roteirista e Diretora.
42 - Marília Nogueira - Roteirista e Diretora.
43 - Sílvia Godinho - Diretora, Roteirista e Produtora.
44 - Erica Malunguinho - Deputada Estadual do PSOL.
45 - Rafaela Carmelo - Diretora e Roteirista.
46 - Érica Sarmet - Roteirista, Diretora e Pesquisadora.
47 - Jorge Washington - Ator fundador e membro do Colegiado gestor do Bando de Teatro Olodum.
48 - Gabriel Nascimento - Professor, Pesquisador e Escritor.
49 - Gabriela Ramos - Advogada e Pesquisadora.
50 - Pedro Borges - Jornalista e co-fundador do Alma Preta.
51 - Claudia Alves - Roteirista e Diretora.
52 - Estevão Ribeiro - Roteirista e Escritor, criador da tirinha Rê Tinta.
53 - Rafael Mike - Roteirista - Compositor, Cantor e Diretor Musical (Dream Team do Passinho).
54 - Thamyra Thamara de Araújo - Jornalista e Roteirista.
55 - Ana Pacheco - Roteirista.
56 - Thiago Bernardes - Músico e Educador.
57 - Éthel Oliveira - Cineasta e Cineclubista.
58 - Luiza Romão - Atriz e Slammer.
59 - Marina Luísa Silva - Pesquisadora e Roteirista.
60 - Eric Paiva - Roteirista.
61 - Bruna Fortes - Montadora.
62 - Ton Apolinário - Roteirista.
63 - Atilon Lima - Audiovisualista e Fotógrafo.
64 - Mariana Costa - Pesquisadora.
65 - Monique Rocco - Diretora de Produção.
66 - Karoline Maia - Diretora.
67 - Ébano Gama - Publicitário.
68 - Nêga Lucas - Atriz, Diretora, Escritora.

 

Veja também:

>> Treta: Padilha em filme de Marielle e as eleições no Rio

>> Professor Silvio Almeida ensina "racismo estrutural" a Antonia Pellegrino

>> Milton e o Clube da Esquina: reencontro mítico no Canal Brasil

>> A guerrilha pagou um anúncio no jornal

>> Crítica & Literatura: Literalmente Mulheres

 
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