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Quarta-feira, 22 de Setembro de 2021

É Primavera: Para não dizer que não falei de flores

Canestra di Frutta di Caravaggio
Canestra di Frutta di Caravaggio

Para não dizer que não falei de Flores


Por Francis Ivanovich*

Hoje começa a Primavera de 2021. Neste dia escrevo sobre flores, para não dizer que não falei de flores. Para isso recorro a arte. Visito um cesto de frutas do pintor Caravaggio (29 de setembro de 1571 - Porto Ercole, 18 de julho de 1610), enviado por uma pessoa que marcou profundamente minha vida, de várias formas.

Caravaggio inscreveu seu nome no Barroco italiano e completaria no dia 29 de setembro, 451 anos de vida. Recentemente revi na plataforma MUBI, o instigante filme Caravaggio, do diretor, roteirista e ator britânico Derek Jarmam, que mostra a breve vida do artista interpretado por Nigel Terry. O pintor desde a infância sofreu decepções que perduraram até o fim da sua vida.

Voltando ao cesto de frutas, enviado por essa pessoa, peço que você observe a pintura aqui reproduzida no alto da página. Repare bem que as frutas e as folhas estão avançando rapidamente para um estado de super maturação. Em breve, estarão estragadas e mortas. Quem nunca jogou uma banana estragada no cesto do lixo, mas antes tentou prová-la, lamentando-se por não ter aproveitado da fruta no tempo certo?

Chego ao cerne deste texto. O tempo certo. A primavera serve como perfeita metáfora do tempo certo. Muitas vezes em nossa vida, não percebemos o tempo certo das coisas. Isso não é fácil. A experiência ajuda, mas compreender, sentir e agir no tempo certo é um dos maiores desafios da existência e do convívio. O incrível dos ciclos naturais é esta linda previsibilidade. Todos sabemos que na Primavera as flores explodirão em cores pelas cidades, pelos campos. A natureza nos entrega, no tempo certo, sua beleza, perfume, força. Quanto a nós, temos muitas dificuldades para entregar ao outro ou a nós mesmos, no tempo, as flores das nossas escolhas e decisões.

tela inteira: O cesto que acolhe as frutas está à beira de cair da mesa que o sustenta
tela inteira: O cesto que acolhe as frutas está à beira de cair da mesa que o sustenta  
Repare um pouco mais a pintura. O cesto que acolhe as frutas está à beira de cair da mesa que o sustenta. O mestre italiano maliciosamente está nos dizendo que, a qualquer instante, você pode cair. É uma verdade maravilhosa e assustadora. Na primavera, as flores também despencam do caule, antecedendo o fruto. Em nossa vida, os tombos também podem anteceder uma ascensão florida, um novo recomeço, isso se o nosso tombo não for definitivo, não for um tombo moral e mortal, vale lembrar.

A pessoa que me enviou o cesto de frutas talvez tenha tido a intenção de me alertar sobre a questão de aproveitar o agora. Não deixar de viver o sabor do momento, que a vida deve ser vivida hoje, sem perdermos tempo. Sim, há esse aspecto na pintura, mas conhecendo um pouco de Caravaggio através da sua vida e obra, o pintor nos faz um alerta mais profundo. O tempo certo da nossa finitude.
Nos tempos atuais, marcado, sem dúvida, pela pandemia, as pessoas estão obsessivas pelo agora. Nunca em nossa história, o tempo e as relações afetivas humanas foram tão liquidificados - utilizando o conceito criado pelo filósofo polonês Zygmunt Bauman. Essa fome pelo bagaço do agora, está corroendo a sociedade humana. Tudo e todos estão se tornando descartáveis. O cesto da humanidade está cada vez mais na beirada da mesa da existência, o tombo do cesto de frutas será inevitável.

Em vez de maturarmos e desaparecermos naturalmente, enquanto frutos humanos, estamos nos atirando ao precipício da fuga para o vazio. Nunca se consumiu tanto, nunca se bebeu tanto, nunca se violentou tanto, nunca se mentiu tanto. A crise do mundo é a crise de cada um de nós.

- Há Esperança?

Sim. Na própria pintura de Caravaggio encontramos a reposta. O tempo certo. Este tempo que tem a ver com a nossa capacidade de compreensão e fidelidade a nós mesmos. É saber amadurecer e desaparecer no tempo certo. Com lucidez. É perceber que o cesto está à beira da mesa e termos a coragem de trazê-lo para o centro da távola para o diálogo, a ética, o afeto.

Aí sim, o aproveitar do agora, do instante, do hoje se tornará pleno, e não mera fuga, esconderijo, medo de si mesmo. Não é por acaso que vivemos tempos de frutos tão amargos representados por figuras sinistras que brotaram de árvores secas.

Desejo a todos uma bela e perfumada primavera. Para não dizer que não falei de flores, frutos e Caravaggio, até breve.



* Francis Ivanovich é jornalista, autor, diretor de cinema e Teatro

 

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