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Polícia - Segurança Pública

 

Sexta-feira, 13 de Abril de 2018

Australiano envolvido em atropelamento coletivo era procurado por pedofilia

Atropelamento na areia de Copacabana
Atropelamento na areia de Copacabana

Daquelas histórias inexplicáveis. O caso do atropelamento coletivo ocorrido em janeiro no Rio, quando um motorista, com problemas psicológicos, subiu o calçadão de Copacabana e atropelou 18 pessoas, provocando a morte de um bebê de oito meses, desvendou algo inusitado. Uma das vítimas, um australiano, era procurado no seu pais acusado de pedofilia. Christopher John Gott, de 63 anos, está internado ainda em estado grave no Hospital Municipal Miguel Couto. Ele adotou duas crianças e vivia no Brasil como professor de inglês.


O motorista do veículo, Antonio de Almeida Anaquim, de 41 anos, alegou ter sofrido um ataque epiléptico enquanto dirigia.

A Polícia Civil investiga o atropelamento e agora apura também se Gott cometeu crime de falsidade ideológica - já que ele portava um passaporte falso quando foi socorrido. As autoridades investigam ainda a possibilidade de Gott ter cometido crimes sexuais contra crianças no Brasil.


A descoberta

As suspeitas sobre Gott começaram no Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea. Ali, a Polícia Civil notou que um dos feridos possuía um passaporte com o nome Daniel Marcos Philips. Gravemente ferido, o homem estava em coma - estado em que se encontra até hoje, segundo a Secretaria Municipal de Saúde do Rio.

Philips, no entanto, não existia: não há nenhum registro de entrada ou saída do Brasil de alguém com essa identidade.

A polícia então procurou a Interpol no Rio de Janeiro, que confirmou com autoridades australianas que o passaporte era falso: não havia qualquer registro de passaporte emitido para um cidadão da Austrália com esse nome.

Os policiais iniciaram uma cruzada para descobrir quem era o homem em coma. Como o passaporte era falso, não havia garantia de que de fato ele era australiano.

A Interpol sabia somente que ele falava inglês, então enviou as digitais dele para diversos países de língua inglesa.

"A partir das digitais colhidas, foi feita uma comunicação com outras agências policiais mundo afora. Tivemos algumas respostas negativas, até que finalmente a Austrália confirmou que ele era um cidadão australiano", explicou à BBC Brasil Carlos Henrique Oliveira de Souza, delegado da Polícia Federal e representante regional da Interpol no Rio de Janeiro.

As autoridades brasileiras foram então informadas que o australiano era suspeito de crimes sexuais e procurado por violar sua liberdade condicional - o paradeiro de Gott era desconhecido pelas autoridades da Austrália desde 2007.

Segundo o jornal australiano The Australian, Gott chegou a ser condenado a seis anos de prisão e fugiu dois anos depois. De acordo com o periódico, havia contra ele 17 denúncias diferentes de abuso sexual de crianças, incluindo uma acusação de estupro de uma criança menor de 14 anos e o abuso de um adolescente de 16 anos.

A polícia do Território do Norte da Austrália não comentou as condenações de Gott, mas confirmou à BBC Brasil que procurava Gott por violar sua liberdade condicional.

A entidade também afirmou que trabalha com autoridades internacionais para avaliar a possibilidade de extradição. "Devido à seu estado de saúde, vamos continuar a monitorar a situação com o objetivo de tomar uma atitude, se possível, no futuro", afirmou o órgão.

Professor de inglês



Nascido em Melbourne, Gott trabalhou como professor de ensino médio na cidade de Darwin até 1994 segundo o periódico The Australian.

No Brasil há 20 anos, Gott morava em Copacabana e dava aulas de inglês como professor particular, segundo um conhecido que pediu para não ser identificado.

De acordo com o conhecido, ele cobrava barato para um professor de inglês nativo: cerca de 50 reais a hora. Costumava dar aulas de conversação para adultos, que consistiam em se encontrar em lugares públicos - como o calçadão de Copacabana - e conversar.

"Ele parecia normal, era simples e reservado", diz o conhecido.

Ainda em coma, Gott tem recebido visitas no hospital de um homem que afirma ser seu filho - não está claro se biológico ou adotado. No Brasil, Gott teria criado ao menos duas crianças como seus filhos.

Um funcionário do Hospital Miguel Couto que pediu para não ser identificado disse que é improvável que o australiano saia do coma. A Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro afirmou que ele segue em coma e que seu estado de saúde é grave.

A Interpol no Rio de Janeiro tem trabalhado em cooperação com as autoridades australianas, que estão monitorando a situação de Gott. A corporação também colabora com a investigação da Polícia Civil, ajudando a entidade a obter informações junto à polícia australiana.

Se a Austrália pedir a extradição de Gott, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidirá se autoriza a abertura do processo, mas seria preciso esperar a condição de saúde de Gott melhorar para que ele fosse transportado.

O Ministério da Justiça disse à BBC Brasil que não pode se manifestar sobre casos concretos, "inclusive sobre a mera existência ou não de pedido de extradição, porque poderá pôr em risco investigação em andamento".

 

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