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Sábado, 12 de Agosto de 2017

Crítica & Literatura: A leitura cinematográficas da ternura

A leitura cinematográficas da ternura




Por Olga de Mello*

Mary Poppins, a simpática babá interpretada no cinema por Julie Andrews, nasceu rabugenta, arrogante e consciente de seus direitos trabalhistas. Em 1934, a australiana P.L. Travers lançava mais que um clássico de literatura infantil. Esta sátira à classe média britânica e sua interação com um novo tipo de empregado doméstico, que estabelece uma distância clara dos patrões, mostra-se bastante contemporânea, como se constata na nova edição ilustrada e comentada de Mary Poppins (Zahar, R$ 54,90).



Embora a Mary Poppins do cinema seja gentil e bela, a da série de livros guarda o fascínio das histórias escritas para crianças que não subestimam a capacidade de compreensão do leitor. (A própria P.L. Travers costumava dizer que não escrevia diretamente para o público infantil, mas que as crianças é que determinavam qual leitura as agradava). É a babá fria, mais parecida com as do mundo real, quem vai auxiliar o crescimento emocional de Jane e Michael Banks, que, nos livros, têm mais três irmãos menores. O pai trabalha em algum banco no centro de Londres, enquanto a mãe supervisiona a equipe de empregados - jardineiro, arrumadeira, cozinheira e babá. Uma família que acabou reduzida na adaptação cinematográfica da Disney, transformando a babá numa mulher gentil, quase um modelo para a protagonista da Noviça Rebelde, que Julie Andrews filmaria um ano depois. P.L. Travers detestou o filme por ter pouco a ver com sua criação, opôs-se à escolha de uma atriz bonita demais para o papel e brigou feio com Walt Disney, embora tenha conhecido a tranquilidade financeira graças a ele.



No Brasil, quatro dos cinco livros de Mary Poppins foram publicados pela Record, nos anos 1960. Há três anos, Joca Reiners Terron fez a tradução de uma edição para a Cosac Naify, com novo tratamento visual. O novo lançamento da coleção Clássicos Zahar traz o texto traduzido por Terron e as encantadoras ilustrações de Mary Shepard, que também teve muitas altercações com Travers até a autora aceitar seu trabalho. A encrenqueira talentosa P.L.Travers deixou uma obra consistente, que tem apelo para qualquer faixa etária. Um leitor maduro percebe nitidamente a crítica a um comportamento social que permanece quase intocado até hoje. Fica a esperança de que a Zahar inclua os outros volumes da série na sua deliciosa coleção de clássicos.



Uma nova edição de Um pai de cinema (Record, R$ 34,90), de Antonio Skarmeta, chega às livrarias. Na capa, o cartaz de O filme da minha vida, dirigido por Selton Mello, baseado no conto de Skármeta, que conta a descoberta de um jovem professor sobre a fuga de seu pai, que abandona a família, sem grandes explicações, numa cidadezinha no interior do Chile. Por ser tão curtinho, o conto abre o apetite para reler a novela que perdeu seu título original - Ardente paciência - depois do sucesso que fez nas telas como O carteiro e o poeta (Record, R$ 44,90). A narrariva sobre a amizade ficcional de um carteiro com o Pablo Neruda já estava alinhavado antes que Skármeta procurasse o escritor para entrevistá-lo a respeito da "geografia erótica do poeta". A pauta caiu porque Neruda não tinha interesse em falar sobre seu passado amoroso, mas o jovem repórter passou uma boa temporada na Ilha Negra, observando personagens que acabaram servindo de inspiração para uma bela história, que se enriquece a cada nova leitura.




*Olga de Mello é jornalista, cronista, crítica literária e escreve aos sábados em Conexão Jornalismo.

 

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