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Cultura - Novas Mídias

 

Segunda-feira, 18 de Setembro de 2017

Rosane Serro: Thesouro da Juventude ou das artimanhas digitais do capitalismo selvagem

Pobres homens: gastam muito para usar  Kenzo, Armani e sapatos JM Weston
Pobres homens: gastam muito para usar Kenzo, Armani e sapatos JM Weston

Thesouro da Juventude ou das artimanhas digitais do capitalismo selvagem



Por Rosane Serro*

No último ano fui gradativamente cortando os laços com a mídia tradicional: parei de comprar revistas, cancelei a assinatura do maior (e mais conservador) jornal da cidade, cortei a TV a cabo e deixei de assistir a TV aberta. Ou seja, enterrei minha persona consumidora. Desde 2014, resolvi me alimentar visualmente de um serviço de streaming (afinal as séries de TV me atraem do ponto de vista da estrutura dramatúrgica) e intelectualmente de livros, cinema, edições online de jornais estrangeiros e amigos. Até que, há três semanas, o serviço de streaming congelou e eu me vi sem opções para esvaziar a cabeça quando chegava daquele enorme hospital getulista da Rua Sacadura Cabral, no Rio de Janeiro.

Pois naquele momento histórico, uma cratera se abriu. Eu ainda não sabia, mas estava prestes a abandonar o sistema midiático como até então o conhecemos: me tornei uma telespectadora daquela rede social gigantesca alimentada por vídeos. Não, péssima classificação. Me tornei uma exploradora. Hoje, vasculho suas atualizações como antes trocava os canais da TV. Escolho o conteúdo conforme meu humor, interesse, disponibilidade, juízo e ideologia. Desde a invenção do rádio e do sistema de broadcasting (em que um ponto gera um único conteúdo para um sem número de receptores) não me sentia tão livre.

Dândis congoleses e Bunraku



OK, vocês podem argumentar que não me libertei coisa nenhuma, que toda minha navegação está sendo rastreada por algoritmos canibais, que mapas de calor estão sendo construídos pelo Big Brother teratológico colonizante formado pelas corporações de pesquisas e redes sociais. Vocês estão cobertos de razão. Mas é que minha mamadeira de quando comecei a ler aos três anos foi o Thesouro da Juventude. Uma enciclopédia de 18 volumes num português castiço que minha avó ganhou de meus bisavós em sua infância. Tudo sobre tudo. E em cada volume se escondia o "Livro dos Porquês". Imaginem o êxtase de saber que o mundo estava ao seu alcance ?

Para voltar à esta Madeleine é que decidi entregar, toda noite, parte do funcionamento dos meus neurônios às grandes corporações. Só assim soube que, em Brazzaville, na República Democrática do Congo, uma cidade de casas de placas de zinco, sem urbanização, saneamento básico e água encanada; há uma subcultura de homens chamados "le sapeurs", integrantes da comunidade La Sape - Société des Ambianceurs et des Personnes Élégantes, que se veste com paletós Kenzo, Armani e sapatos JM Weston de US$ 8.000 (conquistados com mais de dois anos de trabalho). Eles se reúnem aos sábados e domingos à beira do Rio Congo para se exibirem e mostrarem o quão dândi e elegantes são, apesar da incrível pobreza do entorno. Alguns escondem das famílias sua condição, porque, afinal, não parece certo pedir empréstimos bancários de US$ 24.000 para comprar gravatas e roupas, enquanto seus irmãos passam maus momentos em outro ponto da cidade.

Também estou contribuindo para as estatísticas ao descobrir que o serviço global da rede de TV japonesa NHK tem um programa chamado "Japanology" que ensina, com detalhes, todos os fundamentos dos hábitos e cultura nipônicos que você nunca teve a quem perguntar: quais as regras simbólicas para construção de jardins secos ou com lagos? Por que os japoneses gastam milhares de ienes com artefatos para dormir? Quais são os elementos principais do tradicionalíssimo teatro de bonecos Bunraku? Qual a maneira correta e polida de segurar os hashis? Do que consiste, afinal, a cerimônia do chá? Quantos pratos são preparados em um jantar Kaiseki? 28? 30? Ou 35?

Homem não entra



Confesso, não tenho me importado em trocar minhas informações pessoais - que já navegam há anos pelos cabos submarinos da Internet mundial, num ir e vir entre bancos, cartões de crédito e bilhetes aéreos - para saber que, ao Norte do Quênia, há 15 anos, as mulheres se uniram contra a mutilação feminina, a violência doméstica e os casamentos arranjados e formaram uma comunidade chamada Umoja. Em Umoja, homem não entra. As mulheres podem namorar e ter filhos, que são criados comunitariamente, mas os homens ficam de fora. Umoja hoje é auto sustentável e possui até uma escola que serve aos vilarejos vizinhos.

Troco ainda meus dados para conhecer Pohua Dondrup, um documentarista tibetano que resolveu filmar meticulosamente o cotidiano de seu povo. Aliás um povo ritualístico, cujos monges aspirantes a sabedores da iluminação universal precisam embrulhar, de forma lenta e meticulosa, 1.000 pacotes de açúcar para serem distribuídos no sistema "barata voa" para a multidão que se acumula durante a cerimônia de sua iniciação.


 Lucy Worsley: a convivência entre homens e mulheres desde a Idade Média
Lucy Worsley: a convivência entre homens e mulheres desde a Idade Média  



Aliás, foi com Dondrup que aprendi que não quero ser mulher no Tibete. Lá, minhas companheiras de gênero cozinham pão e verduras 70% do seu tempo enquanto colocam os filhos para acordar e ir à escola; varrem curvadas o quintal de terra (o que aos olhos ocidentais parece inútil); ordenham a vaca e cantam o mani (as seis sílabas sagradas) para espantar insetos e pragas quando capinam, curvadas. Elas também ensacam o esterco e carregam os burricos para despejar o conteúdo no campo e ainda partem a pé para coletar madeira a 12 Km de distância e percorrerem outros 12 Km na volta, novamente curvadas agora pelos 40 quilos de toras nas costas. Os homens? Ah os homens colocam a água e oferendas para os deuses, fazem todas as refeições em silêncio e depois saem.

Do Tibete às águas turquesas do Pacífico. Sim, estou dando acesso ao meu funcionamento neuroanímico para saber que os neozelandeses também foram ruivos de olhos verdes e que seu território foi povoado por iranianos e indianos que se miscigenaram luas cheias afora, percorrendo oceanos e atracando no México, Peru, Ilha de Páscoa e nas Polinésias. E que a Rainha Vitória se apaixonou por um serviçal indiano no fim da vida (fofoca que gerou filme sério e edulcorado, estrelado por Judi Dench). Ou ainda que Shakespeare viveu sete anos na Itália e lá se apaixonou por Aemilia Bassano, a quem foi ligado emocionalmente por toda vida. Uma poeta morena, filha de pai veneziano, músico da corte de Elizabeth I, por quem Shakespeare não teve coragem de deixar a esposa inglesa, filha de fazendeiros, sem qualquer formação intelectual e mãe de seus filhos gêmeos (só esse assunto daria panos para outra manga de documentário: a eterna covardia masculina diante do amor fora do padrão socialmente aceitável - um fenômeno atávico e universal).

A Rainha Vitória e o serviçal indiano, Abdul Karim: amor guardado até outro dia
A Rainha Vitória e o serviçal indiano, Abdul Karim: amor guardado até outro dia  




Sem almoço grátis



Admito, estou cambiando minha biometria para aplicar o vício da curiosidade. E foi assim que cheguei à minha nova novela das oito, meu conta gotas escapista preferido: a inglesa Lucy Worsley. Historiadora, mistura de melindrosa com prima bem comportada, gauche em um mundo de mulheres-sereia bombadas para consumo imediato, Lucy é doutora e curadora chefe dos Museus-Palácio da Grã-Bretanha.

Pois em suas horas vagas, ela escreve livros e filma séries históricas cheias de humor e aventura para o canal BBC Four. Como o caso de "Se as paredes falassem", sobre a evolução dos lares e estilos de convivência doméstica da Idade Média aos dias de hoje (você sabia que a mania de colecionar bibelôs surgiu com a revolução industrial e a ostentação da recém criada classe média assalariada?). Ou sobre a história do romance. Ou a história íntima da dança ao longo dos séculos. Ou sobre o período georgiano formado pelos reis alemães que governaram a Inglaterra. Ou sobre as cortesãs do século XVIII. Ou sobre os quatro grandes czares da Rússia. Ou sobre a relação entre a Imprensa, os crimes e as histórias de detetive. Ou como os Tudor falsearam a história e criaram a Guerra das Rosas para manipulá-la ao seu favor. Enfim, Lucy Worsley é quem hoje conta fábulas no ouvido para, quem sabe, conseguir driblar minha insônia. Pois não consegue. Fico acesíssima, ao descobrir novos fatos e googlando às 3h da manhã para saber mais sobre artefatos de viagem do século XIX.

Enfim, minhas digitais, minha íris, minhas conexões neurais estão entregues às grandes corporações. Porém... Ainda não sei por que a Austrália é o país do mundo com os animas mais bizarros, monstruosos e perigosos do planeta (que inclusive invadem casas!)... Quanto custará um quilo da minha carne?

Ironizo. Estou só encantada pela quantidade "zettabáitica" de informação disponível. Mas todos nós sabemos - ou deveríamos saber - que no capitalismo não há almoço grátis. Quando entregarem a conta, acenderei meu Partagás, darei uma baforada e direi para cobrarem do Trump, só de deboche. A rigor, ela já foi regiamente paga com todos os posts, fotos, comentários, likes, corações, discussões e visualização de publicidade irritante e vexatória com que movimentei as redes sociais nos últimos anos. Eu gerei - junto com os bilhões de internautas acesos ao redor do mundo - o conteúdo e a audiência que as redes sociais tanto necessitam para sobreviver comercialmente. Logo, quando a cobrança Big Brother recrudescer, já estarei no Uruguai. Ou no Minho. Ou no meio do mato, desconectada. Vou viver de amor, ervilhas e palavras. Ou com aquele homem alto que sabe quem é Phileas Fogg...



* Rosane Serro é jornalista, publisher na empresa Mulheres do Mundo, produtora executiva na empresa Santo Antonio Documenta e não tem medo do mapa de calor...

 

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