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Quinta-feira, 09 de Janeiro de 2020

Pouco há de compreensão da vida para um país que vive de alegrias momentâneas

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Pouco há de compreensão da vida para um país
que vive de alegrias momentâneas



Por Álvaro Miranda*

O título desse texto tem origem numa frase de Alysson Leandro Mascaro contida num de seus livros: "Pouco há de educação diretamente na empiria da dor". Acabei usando-a como epígrafe do meu mais recente livro de poemas, "Estranho país que teus olhos já não procuram mais" (Rio de Janeiro, 7Letras, 2019).


Se a imaginação da realidade condiz ou não com o que realmente acontece, talvez muitas coisas percebidas coincidam ou se aproximem do real, ainda que numa visão intuitiva, a partir do olhar empírico e errático sem uma pesquisa científica mais rigorosa.

A sensação é a seguinte. O desmonte geral do Brasil vem se materializando na tragédia que muitos não querem enxergar: a redução da vida à mobilização do povo pelo futebol, carnaval, igreja e o churrasco do fim de semana. E, claro, sendo conduzido diariamente pela televisão e pelas "fakenews" espalhadas pelas redes sociais.

Se existe ou não estratificação biológica comprovada entre níveis de inteligência, penso que o povo não é burro, mas vem sendo limitado ao longo da vida, no plano material, para suas potencialidades cognitivas e criativas. E, assim, vai sendo treinado a se imbecilizar na base do conta-gotas desde o nascimento. Porém, sempre com alegria, festas e muita oração.

Aos que consideram essa afirmação exagerada, seria o caso do convite à indagação e à pesquisa comparativa sobre quais camadas da sociedade têm outras opções, mais diversificadas, de imaginário, cultura, socialização e lazer para além do futebol na televisão ou no estádio, a igreja, a praia nos fins de semana e a cerveja com amigos e parentes.

Nesse caso, a indagação seria: quais as parcelas da sociedade têm mais acesso constante e rotineiro a livros, museus, cinema, teatro e viagens ao exterior? E, dentro dessa indagação, uma outra, que tem a ver com as críticas feitas por Jessé de Souza sobre a classe média: por quais mecanismos os supostamente aquinhoados de informação e cultura contribuem para manter o drama nacional?

A verdade é que a tragédia vem se instalando no Brasil, mesmo antes de Bolsonaro, com os agravantes se intensificando a cada dia na retaguarda temporal em relação aos efeitos externos de um mundo também caindo aos pedaços em diversas de suas regiões.

Sim, claro, existem lugares e países ainda protegidos, além de estratos sociais em seus respectivos contextos de mais informação, cultura, segurança política, militar e econômica.

A assunção do atual (des)governo no Brasil só veio tornar mais agudo nosso dramático pesadelo. Os otimistas que me respondam, por favor, como vai ficar nosso querido país vestido de verde e amarelo, caso se confirme e perdure no tempo um desastroso posicionamento do governo diante de uma terceira guerra mundial de proporções inimagináveis.

Se haverá ou não guerra agora, ou se ela já começou ou não, lembro que, assim como as crises do capitalismo, distintas ao longo do século XX, com seus resultados diferentes em cada uma, as novas guerras mundiais vem se configurando em formatos também distintos das duas anteriores, que o digam melhor os historiadores e os especialistas em geopolítica e relações internacionais.

Lembro que - com exceção talvez de terroristas lunáticos e geopolíticos sagazes com sangue nos olhos - ninguém imaginava um atentado às torres gêmeas no coração de Nova Iorque, em setembro de 2001, com pilotos de jatos suicidas cruzando o Atlântico.

Assim também, no século passado, as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Por outro lado, como negar riscos e a possibilidade de fatos pavorosos e imponderáveis diante da existência de mísseis intercontinentais? Muitos vêm pensando, de forma séria e engajada, através da pesquisa e do desenvolvimento do pensamento - e indagando, perplexos, ao longo da história - por que um mundo com tanto desenvolvimento científico e tecnológico ainda causa tantos problemas e desigualdades sociais e econômicas.

Obviamente, com todo o respeito a esse grande nome de nosso imaginário coletivo, Jesus Cristo não vai responder assim como não vai apresentar propostas de solução para políticas públicas. E também não tem como se meter com aquilo que os seres humanos tinham que fazer, no caso, por exemplo, investigar e punir os donos de igrejas que lavam dinheiro ilícito e que enriquecem às custas de fieis humildes e honestos.

Além disso, a base da vida de um país, em termos de subsistência, reprodução e desenvolvimento, é a economia, não a religião, sendo essa mais um elemento da chamada superestrutura para usar uma conhecida terminologia marxista. A vida humana em sociedade é determinada por complexos contraditórios de várias instâncias sobredeterminantes entre si. Entretanto, sem a base econômica, não há vida, subsistência, reprodução e desenvolvimento de potencialidades criativas.

Vivemos numa espécie de prontidão inconsciente, embora inermes, face a tragédias iminentes e bizarras. Ou vamos sempre ter que encarar o cotidiano como um jogo de dados entre a sorte e o azar? Vamos assumir nossas vidas como destino vindo de alguma força esotérica no equilíbrio do trapézio mais esfarrapado das mentiras sem lona lá embaixo para nos acolher em caso de queda?

Se se confirmar mesmo a queda de 1,2% na produção industrial em novembro, trata-se de mais uma evidência da retração econômica. Falas bizarras, falsas polêmicas, ameaças e patacoadas dos governantes e seus apoiadores nada mais são do que táticas para desviar as atenções dos problemas mais sérios. E haja promessas e previsões alvissareiras com números grandiloquentes!

Ao mesmo tempo tecnocratas e intelectuais reproduzem um viés de cepa pós-moderna e falaciosa, segundo a qual precisamos nos adaptar ao ritmo da transformação digital nos locais de trabalho. Que trabalho? "A adaptabilidade se destaca como a habilidade mais relevante para os anos 2020", afirma Jason Wingard, reitor da Columbia School of Professional Studies", como se tivesse inventado a roda (Valor Econômico, p. B2, 9/1/2020). Óbvio que temos que nos adaptar, isso acontece desde os tempos das cavernas.

Entretanto, há que ser num processo em que somos também agentes criadores e transformadores, escolhendo alternativas de futuros. Não se nega e nem se rejeita um mundo novo de novas tecnologias. A pergunta, no caso do Brasil, é: adaptar-se à escravização geral de "uberismos" e nos acostumarmos com a ideia da ausência de futuro? Ou melhor, aceitar e esperar um futuro sem aposentadoria, de envelhecimento precoce, com doenças sem remédios e sem hospitais?

Também quero Carnaval, praia, futebol e festas com os amigos. Difícil, porém, confesso, nesse clima obscurantista. Não tenho conseguido reconhecer mais este país, estranho país que parece se contentar com alegrias fugazes em meio à dor cotidiana de olhos nublados.


* Álvaro Miranda é jornalista, poeta, mestre e doutor em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento pela UFRJ, prestes a lançar seu quinto livro de poesia. Autor de "A casa toda nave cega voa" e "Pra que serve a palavra nunca".

 

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