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Quinta-feira, 02 de Novembro de 2017

Pezão leva ao STF ação contra Torquato Jardim

Da Redação
Arte de Latuff

Pezão não quer perder o pouco que lhe resta: o apoio, mínimo, da área de Segurança Pública. Foi este setor, em meio a crise financeira instalada por conta dos esquemas escusos envolvendo a gestão de seu antecessor, e da qual fez parte, o primeiro a ter o salário colocado em dia - enquanto até hoje os demais servidores penam para ver regularizado. Por conta disso, Pezão pretende ir à última instância jurídica para parecer defender a Polícia Militar. Esta semana a instituição centenária, acusada de matar muito e morrer demais, foi enxovalhada pelo ministro da Justiça, Torquato Jardim. Este disse que oficiais da corporação estejam pouco a pouco substituindo os traficantes de drogas na cidade.



Por Léo Rodrigues

O governo do Rio de Janeiro protocolou hoje (1º) no Supremo Tribunal Federal (STF) uma interpelação judicial contra o ministro da Justiça, Torquato Jardim. A medida foi tomada em reação às declarações de Torquato publicadas pela imprensa nos últimos dias. Em entrevistas a diferentes veículos, como o jornal O Globo e o portal UOL, o ministro disse que o comando de batalhões da Polícia Militar (PM) do Rio de Janeiro seria definido por "acerto com deputado estadual e o crime organizado" e que "em algum lugar, voltamos a Tropa de Elite 1 e 2, onde alguma coisa está sendo autorizada informalmente", em referência ao filme de José Padilha.

Na interpelação judicial, o governo do Rio de Janeiro defende que Torquato Jardim precisa comprovar todos os fatos para não responder pelos crimes de calúnia, injúria e difamação e também por prevaricação. O governo pede ainda que o ministro seja obrigado a descrever os fatos ilícitos a que fez referência, liste os nomes dos agentes públicos que teriam praticados os crimes alegados e apresente documentos que atestem a veracidade das informações.

O pedido cita ainda trechos de entrevistas publicadas nas quais Torquato Jardim disse a jornalistas que existem dados do serviço de inteligência subsidiando suas afirmações. "É dever funcional do interpelado - via resposta a esta interpelação - comprovar todos os fatos que afirmou conhecer a partir de documentos oficiais", registra o documento.

O governo do Rio de Janeiro argumenta que os fatos criminosos mencionados pelo ministro devem se tornar conhecidos pelo princípio da publicidade, da moralidade e da indisponibilidade do interesse público. Para o governo, a interpelação é um meio de esclarecer as acusações para, num segundo momento, poder adotar medidas cabíveis.

Nesta quarta-feira, Torquato comentou a repercussão de suas declarações e classificou como "normais" as reações contrárias. Em nota, o governo do Rio de Janeiro já havia rebatido as afirmações e disse que não negocia com criminosos.

Deputados federais e estaduais do Rio de Janeiro também criticaram o ministro. O presidente da Assembleia do Estado do Rio (Alerj), Jorge Picciani (PMDB-RJ), chegou a publicar um vídeo nas redes sociais caracterizando as afirmações de mentirosas. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, também desaprovou as declarações de Torquato Jardim e considerou ser irresponsável uma manifestação desse tipo sem provas.

A Agência Brasil pediu ao Ministério da Justiça uma posição oficial sobre a interpelação judicial apresenta pelo governo do Rio de Janeiro, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

Reunião



A interpelação judicial foi anunciada pelo secretário de estado de Segurança, Roberto Sá, após um reunião com o governador Luiz Fernando Pezão. Também participaram do encontro o secretário da Casa Civil e do Desenvolvimento Econômico, Christino Áureo da Silva; o vice-governador Francisco Dornelles; o comandante-geral da Polícia Militar, coronel Wolney Dias; além de outros coronéis e comandantes da corporação.

Em pronunciamento, Roberto Sá manifestou solidariedade à PM e disse que a interpelação não traz prejuízos para a relação com o governo federal. "Não interfere em nosso trabalho com o governo federal. Pelo contrário, toda ajuda é bem vinda. E o trabalho no nível operacional está transcorrendo de uma maneira espetacular", disse.

Ele também defendeu o coronel Wolney Dias. "Conheço ele há 34 anos. É um profissional com a carreira ilibada, com mais de 10 comandos operacionais, comandos intermediários, corregedor por duas vezes e integrante de missão de paz da ONU [Organização das Nações Unidas] no exterior. Além disso, está totalmente alinhado com as minhas diretrizes e é uma pessoa que goza da minha confiança", afirmou.

Wolney Dias tomou posse na semana passada como comandante-geral da PM e sua nomeação também foi criticada por Torquato Jardim. O ministro disse achar curioso que Roberto Sá não tenha optado por oficiais da ativa e sim por um coronel que já estava aposentado. O secretário de segurança afirmou haver outros coronéis capacitados para a função, mas alegou que nesse momento era necessária a experiência de Wolney Dias.

Coronel morto

Roberto Sá criticou ainda outra declaração de Torquato Jardim em que ele insinuou que a morte do coronel Luiz Gustavo Teixeira , então comandante do 3º Batalhão de PM, teria sido uma certo de contas. O oficial morreu baleado na última quinta-feira (26) quando o carro onde estava foi cercado por bandidos que atiraram contra o veículo. "A linha de investigação da Divisão de Homicídios da Polícia Civil, instituição que respeitamos muito pela qualidade de seu trabalho, aponta que ele foi baleado quando reagiu a um roubo. E ele não pode estar aqui para se defender".

O assunto também foi abordado pelo comandante-geral da PM. "Acho um absurdo se levantar uma suspeita de um coronel que dedicou a sua carreira a dedicar bons serviços ao Rio de Janeiro. Um absurdo se levantar qualquer insinuação. Era uma pessoa muito querida, um profissional exemplar, e sua família não merece que sua imagem seja arranhada". Wolney Dias também rebateu as acusações do ministro Torquato Jardim. "Eu não comando uma horda. Eu comando uma legião de heróis que sangram diariamente, tingem o solo do estado em defesa da sociedade e da população à qual jurou defender".

Da Agência Brasil

 

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