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Segunda-feira, 11 de Fevereiro de 2019

Ricardo Boechat, o "Robin Hood" dos tempos modernos

O cavalo branco está passando selado...
O cavalo branco está passando selado...


Por Sônia Araripe, Editora de Plurale

O ano de 2019 começou com notícias fortes e intensas. Primeiro o rompimento da Barragem da Mina do Córrego do Feijão, crime ambiental provocado pela Vale, que até o momento provocou 165 mortos e 160 desaparecidos. Depois, mortes por chuvas no Rio de Janeiro e, na sequência, 10 meninos mortos do time de base do Flamengo. Eis que hoje, por volta de meio dia chega a notícia da queda de helicóptero no Rodoanel em São Paulo, matando o jornalista Ricardo Boechat e o piloto Ronaldo Quattrucci.



Tive o privilégio de ter trabalhado com Boechat - 66 anos e 50 de Jornalismo - por cinco intensos anos nos melhores tempos de Jornal do Brasil, virada dos anos 90 para 2000. Ele me fez Editora de Economia e depois Editora-Executiva, em um "dream team", que incluía alguns dos meus "ídolos" da profissão - Augusto Nunes, Cristina Konder e José Casado.

"O cavalo branco está passando selado", brincou o chefe ao fazer o convite para que fosse Editora de Economia. Eu ainda tentei justificar que poderia ser responsabilidade demais para alguém com perfil de Repórter. Fui convencida, montei no tal cavalo branco e não me arrependi. Alguns anos mais tarde, também foi Boechat, com Cristina Konder, os portadores do convite para assumir o chamado "aquário" do Jornal do Brasil - como Editora-Executiva- ao lado de nomes incríveis como estes que citei acima. Se, na primeira vez, tinha tentado dissuadi-lo da ideia, na segunda percebi que não era um convite: era um ultimato.

Boechat era assim: intenso, visceral, dono de um humor ferino e uma verdade quase absoluta. Polêmico, não se importava se volta e meia se excedia. Era destemido e representava o lado pouco questionador dos brasileiros: fazia as perguntas mais inconvenientes, era incisivo e não poupava nem mesmo os mais próximos. Nasceu na Argentina, quando o pai, diplomata, lá servia e acho que herdou dos portenhos este tom dramático para a vida. Era repórter em tempo integral, de manhã cedo ou de madrugada. Tinha contatos - as chamadas fontes que "abastecem" jornalistas com informações preciosas - em todos os segmentos. Seu caderninho de telefone - depois a agenda de celular - era quase uma bíblia. Sabia de cor datas e situações que nem mesmo o Google tinha tantas informações. Vivenciou dos salões do Copacabana Palace - como então braço-direito do colunista Ibrahim Sued - às "quebradas" populares. Defendia os direitos do mais simples dos moradores assim como enfrentava - sem dó, nem piedade - o mais poderoso dos políticos e empresários.

Era um "Robin Hood" dos tempos modernos, totalmente desapegado dos valores monetários. Sentia-se também um missionário da defesa da chamada imprensa livre, da democracia acima de tudo, da possibilidade de ser a voz de quem não tinha voz. Destemido, nunca temeu dar um "furo" sob o risco de processo judicial: tinha vários e se orgulhava. "Deixa eles processarem", dizia. Colecionou desafetos, com a mesma capacidade que fazia amigos por onde passava. Não tinha papa-na-língua. Ouvi, recentemente, uma entrevista sua com um político. Boechat cobrava do porta-voz uma explicação para um desvio de verbas, quando o que o político começou a explicar: "Veja bem ...". O jornalista, ao vivo, na rádio, mandou "na lata": "Veja bem o senhor. Quando alguém começa uma fala assim já sei que não tem como se justificar". Era Boechat no melhor estilo Boechat.

Que ninguém confunda sua morte num helicóptero executivo com a pressa do vil metal e o esnobismo de executivos, banqueiros e políticos que tanto entrevistou. Boechat morreu na pressa para chegar em casa e almoçar com a família. O casamento com a sua Doce Veruska, como chamava a esposa, o tornou um pai ainda mais amoroso, um marido capaz de fugir para viajar com a família. Teve seis filhos, dos quais as duas meninas menores com Veruska, onde moravam, em São Paulo.

Quando o conheci, rezava a lenda que não pagava as contas de luz por pura displicência ou rebeldia civil. A companhia de energia cortava a energia e ele ia para a janela, no então apartamento de Niterói ontem morava, ler jornal. Lembro dele distribuindo brindes no fim de ano para motoristas e contínuos, os chamados "jabás", que pululavam as redações em tempos de bonança e pouca ética. "Não quero levar nada desta vida", dizia, rindo. Lembro também dele pagando contas de jornalistas e dando emprego para os que estavam "no desvio". Era generoso com os mais jovens, com os colegas mais velhos, da mesma forma que impiedoso com os criminosos do colarinho-branco.

Trabalhar com ele era como ter uma aula por dia, uma universidade por hora. Aprendi com Boechat a não me deixar "contaminar" pela modinha da vez, pela apuração rasa e apressada. Era bem incisivo nas cobranças. O "careca" das horas alegres virava o "Boechato" nas rodas de conversa do corredor diante do sufoco das cobranças. Era chato sim, como deve ser todo jornalista sério e relevante.

Em setembro de 2001, estava em casa tomando café quando o primeiro avião atingiu o World Trade Center, em Nova York. Fiquei em estado de choque, entre incrédula e estupefada. Larguei o café e corri para a Redação do JB, ainda na antiga Avenida Brasil, onde hoje funciona o Into, hospital de Ortopedia. Boechat já estava lá. Comandando a redação, como um maestro, pedindo matérias, editando....Ficou decidido que haveria uma edição verpertina do Jornal do Brasil a ser vendida em pontos-chave, como nas Barcas e na Avenida Rio Branco.

Foi um sucesso. Toda vendida. Nenhum outro jornal ousou em três horas apurar o que fosse possível, editar, rodar e sair na praça. Mais um golaço de Boechat. Era jogador de futebol com os amigos nas horas vagas, gostava de ir à praia - o tal sungão vermelho era motivo de risada entre os motoristas de táxi, de curtir a vida quando conseguia.

Na sua corrida diária, não vínhamos nos falando muito recentemente. Nos reencontramos a última vez em São Paulo, em 2014, eu e ele ganhando o Prêmio Comunique-se. Estavam lá vários ícones do Jornalismo, como Clóvis Rossi, Miriam Leitão, José Hamilton Ribeiro e tantos outros. Subi no palco, misto de feliz e trêmula, e tomei coragem. Agradeci aos mestres, aos gurus de um Jornalismo verdadeiro e íntegro. Boechat veio me dar um beijo. "Obrigado, Ararinha". Era assim que me chamava, carinhoso e fraternal. Voa, Mestre. Voa alto. Faça a Edição daí de cima. Vamos tentar manter aqui o mesmo padrão de apuração e de dever cívico. Não será fácil. E mande recados reclamando de vez em quando. Vamos morrer de saudades.

(Foto da Band/ Divulgação)

Publicado originalmente no site da Revista Plurale

 

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